06/03/2014

A importância de escolher uma boa azeitona

Sempre gostei de azeitonas. Desde pequena que me seduzem com a sua cor, forma e sabor, embora as comesse em quantidades controladas, por ser frequente engolir os caroços, acidente de percurso que nem pais nem avós viam com bons olhos. Para além disso, diziam-me que faziam mal, causavam borbulhas, constrangiam as cordas vocais, davam dores de estômago e maleitas afins que atacavam criancinhas gulosas, mas poupavam os adultos, talvez porque a doença seja ela também muito velha e se queira vingar da juventude das crianças pequenas.

Preferi durante muitos anos as pretas imaculadas, lustrosas, grandes. Torcia o nariz às retalhadas, mais pequenas, imperfeitas e irregulares. Diziam-me que faziam melhor, não eram tão ácidas, mas a minha arrogância ignorante – é uma parceria comum, que vive muito da partilha de estados – rejeitava o produto da oliveira abaixo da perfeição. Há uns anos, aprendi a gostar das verdes, sempre das tamanho XL, sempre as mais perfeitas.

No entanto, se há algum conveniente na passagem do tempo e do progressivo envelhecimento – ou amadurecimento, se tiverem alguma questão mal-resolvida com a palavra «velho» - está na capacidade de apreciarmos o que antes rejeitávamos: o prazer de comer azeitonas retalhadas.

O sabor é diferente, perdem-se na boca e são o casamento perfeito para pastéis de bacalhau, presunto, chouriça assada, pão simples e tudo o mais que queiramos combinar, porque o amor de uma azeitona está acima dos tipos convencionais.


Aconteceu-me o mesmo com as pessoas. Na minha infantilidade juvenil, acreditei que as mais perfeitas e agradáveis à vista eram as melhores; hoje sei que o prazer da degustação está nas retalhadas, nas que têm cicatrizes e golpes e marcas muitas, lastro mais, que não são perfeitas, nem uniformes, que têm um quê de outsiders, que sabem o que é isto de viver, pelo menos não se negaram, e por isso são menos ácidas, menos iguais, mas muito mais saborosas e vão bem com todos os estados de alma.