Pensei durante dias se hoje haveria de deixar neste espaço algum resquício do amor que te tenho. Por causa de ti, descobri o egoísmo e o afinco com que se guardam segredos. Não quero partilhar-te com o mundo, nem preciso. Pensei, por isso, durante muitos dias, se hoje, porque particularmente hoje é preciso que se diga o amor com cobertura de açúcar e embrulhado em celofane vermelho, dizia eu, se hoje seria assim tão importante escrever um texto que justificasse o silêncio que faço sobre ti. Considerei explicar que me salvaste do desterro emocional para onde tinha decidido ir. Pus até a hipótese de enumerar todas as vezes que me fazes rir e te indignas quando não me tratam bem e te espantas com as coisas que te digo e gargalhas com as minhas anedotas de gosto duvidoso e ouves pacientemente todas as minhas queixas e me dizes sempre a verdade, mesmo que machuque um bocadinho. Também ponderei divagar pelos quilómetros que percorremos a pé, pelos pequenos gestos e os enormes planos que temos para a vida. Depois decidi que não, não iria escrever nada, iria dizer-te tudo, tudo, tudo, ainda mais uma vez. Mas depois... depois eu vi o que me deixaste e um sorriso ocupou-me a cara e os olhos encheram-se de emoções e eu percebi que, mesmo sem dizer muito, precisava de deixar neste espaço - uma pérola no meio dos escolhos do passado - a verdade fundamental da minha vida: amo-te.