Pequeno barco na tormenta, resiste à queda e em equilíbrio precário segue corredor fora, na felicidade de conseguir ir de uma ponta à outra sem cair. Atira-se para os braços, portos seguros, rindo. «Olá!», é tudo o que sabe dizer, padrão oral com o qual vai marcando as suas conquistas.
22/01/2019
21/01/2019
Insistindo no erro
Ouço na rádio um cientista explicar que a lua de ontem não foi bem uma super lua, foi apenas uma lua um bocadinho maior, e que o desapontamento de muitos observadores do fenómeno estava mais na expectativa errada do que no incumprimento da referida. O jornalista termina o comentário, mencionando a lua tal como o cientista explicou? Nada disso, chamando-lhe super lua, como se o esclarecimento anterior de nada tivesse servido. E não serviu.
16/01/2019
Tentativa e erro
Tentei (afincadamente, diga-se) mudar-me para outra casa que não esta. Escolhi um ponto alto, numa zona nobre, com uma varanda virada ao rio. É bonita a vista da minha varanda: a ponte enevoada pelas manhãs, o rio a espelhar o sol pelas tardes e o convencimento subtil de que a confusão da cidade não chega lá acima. Tentei, é certo. Tentei muito. Desisti. Arrendei a casa por muitos milhares e mudei-me para cá outra vez. Por muito que a vida tenha dado umas grandes voltas, estou mais convencida do que nunca: serei sempre uma rapariga simples.
11/12/2017
Negar o sal
Olho para este blogue e não o reconheço. Não me reconheço. É um amontoado de pedras que me enche os bolsos e me impede de caminhar em frente. Castra-me todas as ideias, as vontades, as palavras que quero, e às vezes preciso, de escrever. É o cadáver que arrasto amarrado ao tornozelo, infectando tudo à volta. Não consigo voltar aqui, não para escrever o novo que acontece nos dias dolentes, não para o pontilhar das certezas que se vão juntando. Preciso de o largar, cortar esta amarra, livrar-me da pele de Uma Rapariga Simples e inaugurar outro espaço, mais arejado, mais limpo, mais puro. É hora de separar a bagagem tóxica e depositá-la nos devidos contentores do esquecimento -- sem medo, sem arrependimentos, negando o sal. O fim deste ano é o limite para muitas coisas terem o seu termo. O fim deste ano é o limite para a existência deste blogue. Em Janeiro, recomeço: a vida, o amor, a família, os sonhos e, quem sabe, um novo espaço virtual. Sem medo. Sem arrependimentos.
06/12/2017
27/11/2017
Baby steps #3
All I want for Christmas is... dormir para o lado que me der mais jeito, sem levar uns valentes pontapés.
26/11/2017
Baby steps #2
Prometeram-me uma pele fantástica e iluminada. Pele de grávida, disseram eles. Enganaram-me completamente.
08/11/2017
Baby steps #1
Hoje, pela primeira vez, olhando de cima para baixo em toda a verticalidade do meu ser, dei-me conta que não consigo ver os meus pés. E que grandes pés eles são.
06/11/2017
Nidificação
Dizem os livros da especialidade que o desejo de nidificação -- arrumar e limpar a casa como se não houvesse amanhã -- é um sintoma de parto eminente. Não desdigo, mas não valorizo sobremaneira. Muito antes do meu pequeno músico ser uma realidade, já os meus dias eram acometidos de vontades extremas de arrumar e limpar coisas. Se bem pensar, os últimos quinze anos têm sido uma constante de momentos em que os espaços onde estive sofreram mudanças drásticas e foram deixados, nos vários caixotes designados para o efeito, sacos e sacos de lixo e de lastro. Aprendi com o tempo que não podemos carregar todo o passado às costas, sob pena de não haver espaço para o futuro. Foi uma aprendizagem muito útil. especialmente por ter uma casa onde cabia eu e tudo o que arrastei durante anos, mas onde não havia espaço para um marido e um filho. A decisão não foi difícil, talvez pelos anos de treino em desapego, e entre eles e os objectos, ficaram as memórias e espaço para o que virá.
24/10/2017
11/10/2017
Pequenas descobertas
Gosto de mexer na superfície arredondada da minha barriga. Sentir os movimentos que aumentam de intensidade a cada semana. Dar suaves pancadas com dois dedos, dizendo baixinho o seu nome, e receber de volta pancadas não tão suaves assim.
Gosto que as tuas mãos descansem na superfície arredondada da minha barriga. E que lhe dês beijinhos e o chames baixinho e ele reaja com firmeza.
São as pequenas descobertas dos nossos dias que vão mudando devagarinho. Nenhum igual ao outro.
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