O telefone não parou de tocar a tarde inteira. A loucura chegou à família. Não que não se tivesse anunciado devidamente, o choque é sempre maior para quem insiste em não ver. No tacho, rodam pedaços de pêra em açúcar e água. O rancor é um pequeno bicho que corrói por dentro. A cozinha exala um calor espesso. São exclamações abismadas e eu tão cansada que não as ouço. A sanidade voou janela fora, arrancando as telhas. Mais dois lugares à mesa: arroz ou batatas, a melhor solução? As pêras apuram na redução do tempo. A loucura chegou à família e eu tão cansada a mergulhar no vinho hermeticamente fechado.
25/08/2015
Longas viagens de autocarro
As longas viagens de autocarro são desbloqueadores perfeitos de reflexões inusitadas. O rodar na estrada, o embalo do motor, o tempo dilatado ao desespero, tudo favorece a mente a perder-se em pensamentos que normalmente não têm oportunidade para importunar.
Por estes dias, não me faltaram horas de viagem para a divagação. Por entre os caminhos tortuosos das ideias em reboliço que nasceram e morreram sem grandiosidade, houve uma certeza que se impôs devagarinho e agora não se afasta, nem por imposição.
Ninguém que me conhece me conhece.
Devem conhecer uns tremendos quarenta por cento faseados, sem noção do conjunto. Ainda não decidi se isto é bom ou não. Às vezes, é apenas solitário.
19/08/2015
Uma questão de narizes
Nem sempre o caminho para o passado se faz andando. Por vezes, basta respirar -- o nariz é implacável na selecção dos perfumes. Daí para a frente é sempre para trás.
17/08/2015
15/08/2015
A paz das almas
As palavras cansaram-se de falar umas com as outras. Limitam-se a actualizações esporádicas de estado. Tudo muito simples, tudo muito leve, tudo muito asséptico, para não ofender a paz das almas.
12/08/2015
fábula da noite cá dentro
a melancolia desceu sobre mim como o escuro desta noite à beira-rio
e a tua memória, outrora gravada a ferro em pedra, esvai-se esvai-se
enquanto a chuva cai sobre a saudade de um tempo de suave recordação
se todas as gotas que já caíram se pudessem esquecer talvez te reinventasse,
talvez a tua imagem não fosse assim difusa e diluída como estas lágrimas,
e estas esferas de sal caíssem e rolassem e seguissem o rio mesmo até à foz
mas não. embaciado como o respirar condensado nos vidros enregelados,
vejo-te desaparecer na sombra dos candeeiros que iluminaram este momento,
porque desponta o dia lá fora mas volta a cair de novo a noite cá dentro
e a tua memória, outrora gravada a ferro em pedra, esvai-se esvai-se
enquanto a chuva cai sobre a saudade de um tempo de suave recordação
se todas as gotas que já caíram se pudessem esquecer talvez te reinventasse,
talvez a tua imagem não fosse assim difusa e diluída como estas lágrimas,
e estas esferas de sal caíssem e rolassem e seguissem o rio mesmo até à foz
mas não. embaciado como o respirar condensado nos vidros enregelados,
vejo-te desaparecer na sombra dos candeeiros que iluminaram este momento,
porque desponta o dia lá fora mas volta a cair de novo a noite cá dentro
josé luís, em novas cartas de marear
09/08/2015
04/08/2015
02/08/2015
Promessas inúteis
A minha caixa de Spam escondeu-me a cura para o fim da solidão. Caído ali em desgraça, um singelo email prometia-me que nunca mais dormiria sozinha. Tinha o senão de vir de uma mulher e de conter o aviso em letras garrafais nada de amor, só sexo mesmo. Apaguei-o definitivamente -- se a caixa de Spam suspeita da cura, eu acredito sem remédio.
Com isto, veio-me à ideia uma música antiga
Something beautiful - Robbie Williams
You can't manufacture a miracle
The silence was pitiful - that day
And love is getting too cynical
Passion's just physical - these days
You analyse everyone you meet
But get no sign - the loving kind
Every night you admit defeat
And cry yourself blind
If you can't wake up in the morning
'Cause your bed lies vacant at night
If you're lost, hurt, tired or lonely
Can't control it - try as you might
May you find that love that won't leave you
May you find it by the end of the day
You won't be lost, hurt, tired and lonely
Something beautiful will come your way
The DJ said on the radio
Life should be stereo - each day
And the past that cast the unsuitable
Instead of some kind of beautiful
You just couldn't wait
All your friends think you're satisfied
But they can't see your soul, no, no, no
Forgot the time feeling petrified
When they lived alone
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