15/11/2013

Eles comem tudo

Vampiros - Nicolas Jaar e Gisela João - Lux (Lisboa)

No céu cinzento
Sob o astro mudo
Batendo as asas
Pela noite calada
Vem em bandos
Com pés veludo
Chupar o sangue
Fresco da manada

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada 

A toda a parte
Chegam os vampiros
Poisam nos prédios
Poisam nas calçadas
Trazem no ventre
Despojos antigos
Mas nada os prende
Às vidas acabadas

São os mordomos
Do universo todo
Senhores à força
Mandadores sem lei
Enchem as tulhas
Bebem vinho novo
Dançam a ronda
No pinhal do rei

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

No chão do medo
Tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos
Na noite abafada
Jazem nos fossos
Vítimas dum credo
E não se esgota
O sangue da manada

Zeca Afonso

Esta noite morri muitas vezes

Segredo


Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma,
enquanto fosses tu a conduzir
o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo,
toda a espiral das horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento,
a música da chuva nas janelas
sob o frio de Fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projectou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome -- essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração.


Fernando Pinto do Amaral, em Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa, Coord. Pedro Mexia

14/11/2013

Natureza humana

As mulheres em particular são engenho de multiplicar homens, são todas feitas de bívios as mulheres, artistas de povoar mesmo sem prenhez, basta-lhes falar ou ser, no resto pensam eles: falo-lhe ou não lhe falo? Beijo-a ou não beijo? São irremediáveis e estúpidos os homens, se se aguentam na vida é mais por privilégios de género do que por competência, os homens são idiotas carregados de sementes.



As mulheres belas podem ser becos e as feias também. Ruas estreitas onde enfiar sob o risco de não sair nunca, porque as mulheres não se acabam. Todas as mulheres são autoras discretas, responsáveis por maridos, filhos, amigos e solitários.

Nuno Camarneiro, No meu peito não cabem pássaros, p. 179 e 180

13/11/2013

Belzebu anda à solta na aldeia. Outra vez.

12/11/2013

Percorrer a avenida entre o relógio e a rotunda dos pescadores exige um esforço da memória superior ao esforço do corpo, para fazer corresponder todos os espaços vazios às lojas que os ocuparam.

11/11/2013

Piratarias à socapa

À revelia da capitã do navio, da última vez que lançámos âncora, fiz umas investigações por contra própria. Receio que a tripulação escolhida não seja tão vil quanto os currículos e as cartas de recomendação fariam supor. Por isso, quando o rum tinha já tomado conta da cabeça e da vontade dos meus companheiros, aventurei-me pelos becos escuros das docas.

A animação inicial deu lugar a um estado de irritação que aumentava consideravelmente. As minhas investigações apenas me tinham feito encharcar a roupa, uns trapos a que meti a mão numa das vezes que nos aproximámos de terra o suficiente. Não me agradava a situação, para mais depois da barrela a que a capitã nos tinha forçado, por ter assumido que a sua condição de líder valia, por si só, para nos usurpar a piscina e enegrecer por fora, num tom que desconfio aquém do tom com que estamos pintados por dentro.

Nem ouro, nem um diamante sequer, quanto mais um zircão, nem um vestido novo, muito menos umas botas menos gastas, vislumbrei. Naquelas docas escuras e húmidas, só se encontravam barris, cordas velhas, pedaços de pau e, claro, o perfume do peixe e dos homens que não se lavam há muito tempo.

Foi então que o vi, encostado a uma parede, fumando um relaxado cigarro, enquanto teclava no ecrã do telemóvel de última geração – confesso que fiquei surpreendida por ver um pirata tão conhecedor da tecnologia de ponta, mas depois lembrei-me do tablet que escondo de todos, debaixo da almofada, para ir actualizando o perfil do facebook e o mapa dos lugares visitados, e considerei que era grande hipocrisia o meu espanto. De qualquer das formas, aquele pirata parecia-me um espécime superior quando comparado com os decadentes, feios, porcos e maus com quem viajava.

Não sei se por excesso de literatura, se por uma excitação fora de série, abordei o estranho, num passo de mulher fatal, retirando-lhe o cigarro e aspirando profundamente. Teria resultado, não fosse eu ser uma não-fumadora, logo, inábil no jeito a dar ao cigarro e ao fumo que me intoxicava os pulmões. O que se passou a seguir não foi propriamente bonito, nem creio que faça parte dos livros de pirataria, mas o ataque de tosse que me atingiu, quase resultou na minha morte – destino ingrato para quem deixou o trabalho que não tinha e a existência parda, para conquistar os mares e ser má. O pirata usurpado do seu cigarro estaria, talvez, habituado a abordagens do género, tendo prontamente iniciado uma reanimação boca-a-boca que, como seria de esperar – visto que um homem é sempre um homem, com a agravante de este ser corsário – levou a coisas que a decência me impede de mencionar.

- Vem comigo para o barco – pedi-lhe, em loucura apaixonada.
- Não posso!
- Não sejas cruel – pestanejei com tímida mágoa, a ver se o quebrava na vontade férrea.
- Sou um pirata, é da minha natureza ser cruel.
- És tudo o que precisamos lá no barco. Que eu preciso!
- Não vou. Agora, não, que joga o Benfica.

E assim me deixou, nas docas escuras e a feder a peixe podre e rum de má qualidade, afastando-se em passo certo, cigarro no canto da boca, em direcção ao café, com a Benfica TV.

Por mil cobras e lagartos!, aquilo não ficaria assim. Com toda a violência do despeito, procurei o barco daquele pirata. «Hás-de pagar-mas, pirata!», murmurei, enquanto tentava decifrar pelo cheiro do cigarro qual seria o barco certo. Com mil diabos, os barcos cheiravam todos ao mesmo – mal, muito mal –, daí que tenha acabado por perguntar ao guarda-nocturno. O homem foi gentil, ou então era o meu decote que lhe despertava sentimentos gentis, e lá me disse qual era a embarcação.


Com uma gargalhada maligna, soltei as amarras do barco e naveguei-o, cortando ondas, velas içadas, iluminada pelo luar, até aos meus companheiros. Não sei como vou explicar onde o desencantei, mas como piratas que todos somos, admitir que o roubei deve chegar como justificação.


Agora, só falta encontrar um forte onde descansar. Os meus ossos precisam urgentemente de uma cama fofa e eu preciso de um banho de espuma.





P.S.: Todas as fotos são minhas e foram tiradas propositadamente para ilustrar o Projecto de Pirataria. :D

10/11/2013

A minha vida dava uma banda sonora #16

É necessária uma certa maturidade que vem com a ainda mais necessária passagem do tempo, para que algumas músicas façam sentido e outras deixem de o fazer. É a flutuação na hierarquia musical que lança para o fundo da tabela as que foram líderes indiscutíveis e traz para o pódio as que, por muito tempo, estiveram abaixo da linha de água.



Ouço uma voz ao fundo
Que me jura existir
Mais que um amor no mundo

09/11/2013

A cabra solitária


Autor David Freitas
Data Fotografia 1950 - 1960
Legenda Pastor e cabra
Cota DFT7905 - Propriedade Arquivo Fotográfico CME @

LA CAPRA

Ho parlato a una capra.
Era sola sul prato, era legata.
Sazia d'erba, bagnata
dalla pioggia, belava.

Quell'uguale belato era fraterno
al mio dolore. Ed io risposi, prima
per celia, poi perché il dolore è eterno,
ha una voce e non varia.
Questa voce sentiva
gemere in una capra solitaria.

In una capra dal viso semita
sentiva querelarsi ogni altro male,
ogni altra vita.

Umberto Saba


A CABRA

Falei a uma cabra.
Estava sozinha no prado, amarrada.
Saciada de erva, molhada
pela chuva, berrava.

Aquele berro monótono era fraterno
à minha dor. E eu respondi-lhe, primeiro
por brincadeira, depois porque a dor é eterna,
possui uma única voz e não varia.
Esta voz ouvia
gemer numa cabra solitária.

Numa cabra de rosto semita
ouvia o lamento de cada mal,
de cada vida.

Tradução minha

Universo feminino


Eu quero guardar teu beijo
Na concha das mãos
Teu cheiro eu levo feito mancha na roupa
Que eu não lavo, não

Sou alvo pros teus olhos claros parecidos
Com essa estação
E adoro os efeitos sonoros de quando você sussurra
Absurdos no ouvido do meu coração
«Se eu corro», A Banda Mais Bonita da Cidade

07/11/2013

House of no regrets

Sei que o conceito casa está em mim muito enraizado, não só enquanto espaço físico, mas como sinónimo de abrigo, família. Sei também que tenho a necessidade, até há pouco tempo inconsciente, de planear, organizar, arrumar o meu espaço, como forma de me arrumar por dentro. Por isso, a minha casa tem sido um projecto meu - bastante imperfeito na sua execução -, como aplicação prática da metáfora da criação do ninho: pintar, arrumar, restaurar, todos estes trabalhos têm passado pelas minhas mãos e, na verdade, não era capaz de substituir os objectos que lá tenho por outros novos, mas impessoais. É também por isso que vou resistindo a abrir as portas a terceiros, pelo menos, não pelo tempo mais do que suficiente para que a conheçam, sem a conhecerem.

Veio esta divagação a propósito de ontem ter esbarrado com esta música da Dulce Pontes, incluída no álbum Focus que gravou com Ennio Morricone, em 2003.

É uma boa definição de casa. A diferença está nos muitos arrependimentos que guardo nas gavetas e nas prateleiras.


House of no regrets - Dulce Pontes e Ennio Morricone


The house where I was born still stands for who I am
Every stone laid is a bridge made to my past

The house where I grew tall towers over me
Shadows bring everything back in soft light
I wouldn't change yesterday, not in my life
And so I live in a house of no regrets

There are many rooms inside my head
Corridors that wind through time, never end
They are journeys meant to be
Every house is part of me

The house where I found love lingers
Sends me shivers, like the first time
Stairways I climb to the heights

The house where I grow old will be free of ghosts
From what I've done, I won't run, come the dark night
I wouldn't change yesterday, not in my life
The years show, I've lived in a house of no regrets

Regressa-se à casa azul

A guardiã da rua é a casa do fundo – a casa da Maria. Um jardim seco, composto a espaços por tufos de plantas medicinais que a dona utiliza em unguentos, remédios e chá, separa o alcatrão da casa da fachada azul, como um fosso à volta de um castelo. Dificilmente o dia rompe a escuridão que se abateu sobre a casa, um negrume de floresta amaldiçoada que assusta a vizinhança e deslumbra Catarina.