Foi uma conversa agradável. Durante cerca de duas horas, Júlio Machado Vaz falou sobre futebol, sobre os portugueses e o futebol, o sofrimento, a dependência, o luto, a autopiedade, o amor. E o oposto do amor.
«O oposto do amor é a indiferença. O ódio é ainda uma réstia de sentimento.»
Escrevo as frases que ouvi, num repente, para não as contaminar com palavras minhas. Percebo que é esta a minha luta, aquela que falho em vencer todos os dias. Não há indiferença em nada que faço. Posso remexer o passado que não me interessa e aonde não quero voltar, nem com intimação; posso divagar sobre o tempo; submergir-me em silêncio; pintar as unhas dos pés de azul forte e passar horas a descascar fisális para um doce que não sei se farei.
Posso ocupar a cabeça com tudo o que me convença que devolvo a mesma indiferença que todos os dias chega e me arrefece mais os ossos, a única certeza que tenho é estar cada vez mais perto do ódio.
