Delimitar o campo semântico da saudade é tarefa a que linguistas, filósofos, artistas e nós, seres humanos normalíssimos, nos propomos cada vez que tentamos explicitar o sentimento. Daí, uma mudança na reflexão antecessora da música: dois excertos de um ensaio de Joaquim de Carvalho, ilustre figueirense e pensador português, cujos textos tive a oportunidade de estudar em Filosofia. Aconselho a leitura deste a par de Problemática da Saudade. Que as minhas fustigações públicas sirvam para alguma coisa mais do que a minha flagelação emocional.
Elementos constitutivos da consciência saudosa
O estar saudoso exprime psicologicamente um estado em que a consciência opõe ao que lhe é dado na experiência patente a preferência de algo já vivido e ausente. O passado é representado em conexão de algo atual e presente, cuja dimensão afetiva é inferior à dimensão afetiva do passado representado.
A posição saudosa é ensimesmada e contemplativa; por isso o conhecimento inerente à saudade não é um conhecimento que é ou possa vir a ser científico, isto é, impessoal, de todos e para todos, nem o comportamento da consciência saudosa dá ensejo ao remorso, apesar da saudade e do remorso radicarem em tendências e concretizações que se enraizaram no âmago do eu pessoal. Assim considerada, a saudade não é a captação sensível de uma realidade extramental, nem a emanação de existências ideais ou irreais, nem tão pouco a criação fantasista da pura subjetividade, porque é um estado que se constitui a partir de uma situação presente mediante a representação de entes ausentes ou de situações anteriormente vividas com plenitude ou vitalmente imaginadas.