Hymn for the fallen - Dead Can Dance
Os pés não tinham rumo traçado, apenas
o desejo de flutuarem nas pedras desenhadas no chão.
Caminhavam em passo certo, aquecidos pelo sol da manhã,
ritmados pela música que só os ouvidos ouviam,
sozinhos e ausentes no meio dos múltipos pés que se
cruzavam com eles. Iam. No vagar da manhã que acordou
em paz.
Mas os olhos prenderam-se ao passado e viram
o que só a memória guarda. Os olhos pararam os pés
e, naquele banco virado para o lago, viram-te claramente
na tua verticalidade de quem observa
mais do que é dado à vista.
Os olhos viram os casacos quentes e o vento frio
e a praia deserta. Disseste que fugias do sol,
mas os olhos sabiam que subias
e descias o teu olhar pelo negro das meias que abraçavam as pernas,
as pernas que se espreguiçavam no sol do inverno e fugiam
da saia curta demais para as cobrir.
Os olhos sabiam que sondavas
aquilo que não me disseste.
Os pés caminharam com pressa para aquele mesmo banco, os
olhos esconderam-se numa cortina de água gelada. A boca apertou-se,
para não te chamar e as mãos não te encontraram.Mas os olhos viram-te, encostado àquele banco a observar
aquelas meias negras e a sondares o que não disseste.