30/09/2013

Naquela manhã choveu

Naquela manhã choveu. Com dificuldade se diria que a manhã clareou, tal a espessura de nuvens que ocultavam um sol já de malas feitas para o outro lado do mundo, sem vontade de conceder mais do que os indispensáveis raios, para nos alumiar e aquecer. Consequência disto tudo, naquela manhã choveu e fez frio.

Os acordares em manhãs assim costumam ser difíceis, o corpo quer o aconchego e o ar fora da cama tende a arrefecê-lo por maldade travessa. É por isso que os dias frios favorecem a junção dos corpos debaixo do lençol, mais do que os dias amenos ou quentes. As relações acontecem por necessidade de conforto, de calor, nas noites frias que hão de, invariavelmente, morrer nas manhãs gélidas. Se chover, pior. Ou melhor, se do outro lado da cama houver um corpo quente.


A noite tinha sido fria – demasiado fria para uma noite de início de outono, dirão os doutorados no Borda-d’água – e a manhã… como já sabemos, fria e chuvosa. A cama aquecida de um lado, arrefecida do outro – ali era sempre inverno, mesmo quando o termostato da casa marcava 34º.

29/09/2013

O palavreado dos boletins de voto

deve ter sido pensado para confundir as pessoas, principalmente se forem mais velhas ou com um nível educacional mais baixo, para não falar das outras. Grita-me a minha avó do lado de lá da lata onde foi votar «qual é que é para a Junta, que eu não o encontro?». Pois, foi preciso olhar bem para os três, para perceber. Não podiam simplificar e chamar às coisas nomes que as pessoas entendam? 

28/09/2013

Que a reflexão comece!

por António Sabão



26/09/2013

A vindima

A vindima é um bom exercício para o esquecimento. Quando se fazem metros e metros, de cabeça ao fundo, rabo para o ar, entre as parras, não se consegue pensar em mais nada, a não ser salvar os dedos da tesoura.

25/09/2013

Bang Bang

Na versão de Dalida ou de Nacy Sinatra, a questão fulcral é
Bang Bang e resto cui Bang Bang a piangere Bang Bang hai vinto tu Bang Bang
il cuore non l'ho più.

24/09/2013

Quem vive entre as ervas, bicando pedrinhas, nunca voará.


23/09/2013

Há que voltar atrás e viver a sombra

Apreender com as palavras a substância mais nocturna
é o mesmo que povoar o deserto
com a própria substância do deserto
Há que voltar atrás e viver a sombra
enquanto a palavra não existe
ou enquanto ela é um poço ou um coágulo do tempo
ou um cântaro voltado para a sua própria sede
Talvez então no opaco encontremos a vértebra inicial
para que possamos coincidir com um gesto do universo
e ser a culminação da densidade
Só assim as palavras serão o fruto da sombra
e já não do espelho ou de torres de fumo
e como antenas de fogo nas gretas do olvido
serão inicialmente matéria fiel à matéria


António Ramos Rosa (1988), O livro da ignorância.




O poeta António Ramos Rosa morreu hoje, tinha 88 anos.

21/09/2013

As tempestades também se abatem

Chegou ao fim da tarde. Há muito tempo que o esperava, só não sabia dizer o dia exacto e a hora certa a que chegaria. Chegou de mansinho e fez-se anunciar. Previra, desde que a certeza da chegada se tinha tornado tão certa quanto a descida de temperatura no Inverno, que se abateria uma tempestade sobre si. Não sabia por que motivo as tempestades sempre se abatiam sobre alguém ou alguma coisa, desconhecia a necessidade que tinham do acto dramático de se sacrificar, para se fazerem notar. Não era tão pouco justo para a vítima - para além de ter de juntar os próprios pedaços, ainda tinha de limpar a sujidade que um suicídio sempre deixava. E as explicações, meu Deus!, como era difícil ter de explicar por que razão nos cabelos e nas roupas, nas mãos e na cara, havia restos de chuva, noite e trovoada. 

De qualquer das formas, acontecera ao contrário do que esperara - tinha sido uma chegada serena, sem choros compulsivos que duravam a noite inteira, nem pensamentos rodopiantes que a mantinham acordada, nem olhos inchados e uma dor de cabeça aguda, pela manhã. Menos um suicídio a contar para a estatística das tempestades.

Chegou ao fim da tarde. De mansinho. Deitou-se com ela na cama e a meio da noite acordou-a, para lhe lembrar que «o amor é uma doença, quando nele julgamos ver a nossa cura».

20/09/2013

Essa paragem do teu pensamento

É como se não chegasses ao fim do teu pensamento.
Como se houvesse um corte entre o que pensas
e o que devias ter pensado ainda para atingires
o ponto mais elevado desse pensamento.
Essa impressão de que alguma coisa ficou por dizer,
como um som que deixasses de ouvir,
essa paragem do teu pensamento
que se recusa em prosseguir,
que se dissolve no sangue onde a escrita permanece,
essa cessação de movimento é a suspensão
da tua própria linguagem.

Fernando Esteves Pinto (2010), Área Afectada, Temas Originais.

18/09/2013

Natureza humana

We're not bad people. We just come from a bad place.
Sissy Sullivan, Shame (2011)

I have a problem, Huston says

De Huston confirmam-me que o foguetão das 17h saiu sem atraso. Não se prevêem próximos lançamentos, «só para o ano», dizem eles. Pelo sim, pelo não, do lado de lá do fio do telefone, aconselham-me em sotaque texano a iniciar treinos intensivos e rigorosos, com dieta e exercício físico, caso haja uma desistência na excursão para a felicidade. Para ir ao espaço, não é preciso nada disto, basta gostar de flutuar.