08/09/2017

O mundo às riscas

Começaste por ser um insistente cansaço, acompanhado do sono que às 21h me prostrava. Depois, uma intrigante sensibilidade aos cheiros, especialmente os muito florais, que me deixava o estômago às voltas. Passaste a ser um «será?» desconfiado, confirmado nas risquinhas azuis daquela espécie de tubo branco. Foi assim que soubemos que eras mesmo, uma pequena existência que, como o vento, não víamos, mas começávamos já a sentir os efeitos. Enchi-me então da esperança de que te haveria de encher de laços e fitas e folhos com florzinhas miúdas; quebrarias o reinado másculo de ambos os lados da família e serias uma pequena princesa fofa nas nossas vidas. Trouxe-vos às duas, a ti e à esperança, todos os dias de espera até ao momento em que me deitei naquela cama estreita que enchia o pequeno espaço escuro, senti o frio do gel a arrepiar-me a pele, a pressão da sonda do ecógrafo na minha barriga e a tua imagem, pela primeira vez, projectada no ecrã em frente. Foi naquele momento, sem que ninguém mo dissesse, que vos perdi às duas -- contra toda a esperança, o futuro será feito de calções, riscas e muito azul. E eu mal posso esperar para que assim seja.



06/09/2017

Da relativa importância de pensar e falar por escrito

Estou a deixar este espaço morrer devagarinho. Não é por falta de assunto ou de histórias, que esses acontecem diariamente e com salpicos de surrealismo consideráveis. Também não é por falta de ter o que dizer, porque nunca falei tanto na vida toda, o dia inteiro. Talvez resida aqui o problema: o silêncio é uma realidade cada vez mais estranha, não há, pois, a necessidade de o fintar com diálogos mudos.

Depois, existes tu e nós. Nós, que começámos com dois e estamos em rápida progressão para sermos três. Essencialmente tu, meu confidente, aturador de neuras, porto de abrigo, pilar forte da minha vida, delicioso parceiro de aventuras, solucionador de 90% dos problemas que vão aparecendo pelo caminho, o meu amor imperfeitamente perfeito para mim. Tu, que reduziste o passado a uma memória longínqua e difusa, de importância relativa. Tu, que me deixas recados que me inundam os olhos e me dás a mão enquanto dormimos. Tu, que andas às voltas com parafusos, porque é preciso que a cama fique bem segura, e analisas exaustivamente as características dos colchões. Tu, que eu amo com um amor tão intenso e retribuído que às vezes dói. Tu, a quem eu posso dizer tudo, sem o deixar registado de outras formas.

Sim, vamos ser velhinhos, os dois, juntos!

30/07/2017

Vamos?



Ou é demasiado paradisíaco? ;)

21/07/2017

Atípicos

Não contámos ao FB a alteração do nosso estado -- o que nos pareceu o mais coerente, já que o mesmo desconhecia o que éramos, não havia por que ficar a saber o que nos tínhamos tornado. Esquecemo-nos que carregávamos máquinas de fotografar, pelo que há poucas provas dos sítios que visitámos, das refeições, dos mimos, de nós. Considerámos que a nossa lua de mel era nossa,  que não era preciso alardear o destino, muito menos perder tempo a actualizar estados que só a nós interessavam. Nem sequer usamos alianças iguais porque tu, na tua imensa generosidade, deixaste que escolhesse a mais brilhante. Não deixamos provas das nossa convivência, é quase como se não existíssemos. Mas nós existimos. Nos longos minutos gastos em conversas, nos regressos a casa e nas despedidas, nos pequenos segredos que se vão paulatinamente desvendando ao mundo, no que não é preciso dizer, num pé que se estica e encontra outro pé do lado de lá, nas gargalhadas e nos pequenos amuos, nesta vida que vamos levando. Pacientemente. Tão estranha, aos olhos dos outros.

Max Dupain,Stiff nor'easter 1940s

18/07/2017

Faz-nos falta 5

Rodearmo-nos de novas experiências.


Mário di Biasi, Anos 50 (?)

14/07/2017

Faz-nos falta 4

Descobrir locais interessantes.

Mário di Biasi, Hungria, 1956

13/07/2017

Faz-nos falta 3

Passear por terras desconhecidas.

Mário di Biasi, Paris, Anos 60

12/07/2017

Faz-nos falta 2

Um Sábado preguiçoso de praia.


Mário di Biasi, Ravena, 1958

11/07/2017

Faz-nos falta

Sentar num banco de jardim.


Mário de Biasi, Milão, Anos 50


05/07/2017

A diferença

Perguntam-me se me sinto diferente. Respondo que não, e não minto. A única diferença está no anelar esquerdo e no dizer público daquilo que já sentia como verdade em privado, há tanto tempo.

04/07/2017

Sozinha

Não é a primeira vez que rodo a chave da porta, sozinha. Não é a primeira vez que subo os degraus íngremes e me deito na cama, sozinha. Não é a primeira vez que sou só eu e o silêncio. Porém, é a primeira vez que tudo acontece, estando eu sozinha, como se há uma vida estivesses comigo e nunca a ausência se tivesse imposto entre nós. Pela primeira vez, em muitos dias, adormeci com dificuldade. Sozinha.