05/10/2013

Parabéns, mana querida!

As relações familiares não precisam de laços de parentesco para acontecerem. Podem depender simplesmente da generosidade do coração. Hoje, a minha irmã do coração faz anos. Somos o par de gémeas mais estranho da história que nem a distância que teima em interpor-se consegue separar. Estes últimos, creio eu, seis anos foram uma montanha-russa de acontecimentos e emoções de parte a parte que comprovaram a resistência desta amizade, por isso, aqui continuamos a desejar o melhor deste mundo uma à outra. Para os cépticos que acreditam que na Internet não se encontram pessoas em condições, digo com toda a firmeza que às vezes lá calha.

Ela tem a cabeça nas nuvens e os pés no chão do Norte e eu gosto dela assim mesmo.

04/10/2013

Coisas de homem

ca. 2006 — Hugh Jackman — Image by © James Houston/Corbis Outline

Gosto de perfumes de homem.
Gosto de cheiro de homem.
Gosto de camisas de homem
E boxers de homem.
Gosto da gargalhada de homem.
Gosto de mãos de homem.
Gosto de cachecóis de homem,
E malas de homem.
Gosto da teimosia do homem.
E mais coisas de homem
que não posso escrever.

Natureza humana

I was drying out.

Senior Ed Bloom in Big Fish (2003)

Diálogos improváveis

— Não tenho nada para te dar.
— Não te pedi nada.
— Eu sei. Mas queria dar-te alguma coisa.
— Não quero.
— Porquê?
— Porque não quero nada que te pertença.
— Gostava que tivesses algo meu.
— Queres colonizar-me?
— É isso que pensas?
— É isso que parece.
— Não és uma terra virgem.
— És muito simpático em lembrar-mo.
— Preferia que fosses.
— Para me reivindicares perante o teu rei?
— Para saber que és minha?
— E por que não ser uma rês? Podias marcar-me com o teu nome e prender-me num redil. Servia melhor os teus propósitos dominadores.
— Haverias de conseguir fugir. És demasiado selvagem para o gosto polido dos meus hábitos.
— Como se isso fosse mau.
— Não é mau, é inadequado.

03/10/2013

R.I.P., Clio


Adeus, companheiro de muitos quilómetros.
Foi contigo o meu único acidente e a minha única multa, a única coisa que tive assaltada; transportaste algumas das pessoas que mais queridas me foram; viste mais do que era suposto; ouviste-me reclamar, cantar, rir, chorar e ouviste o meu silêncio, por horas e horas; enchi-te de lixo, de livros, de atoalhados e miudezas, de tralha e tintas; passeaste na gaiola cães, gatos e pessoas que precisaram de boleia. Tinhas já um aspecto feiinho, mas eras meu; foi nas minhas mãos que chegaste aos 300.000 km e eu gostava de ti como eras. 


Foste muito mau em teres deixado de andar, assim, no meio da auto-estrada, à hora de ponta. E eu que tinha tanta coisa para ir levar ao Ecoponto.
Bolas!

Em busca da «swap» desconhecida

Acordamos a ouvir falar de «swaps», passamos o dia com elas a espreitarem por todo o lado, nem na casa de banho estamos salvos. É a senhora que não sabe das «swaps», é a senhora que afinal sabia das «swaps», é o senhor que não quer saber quem sabia das «swaps» e são as alminhas, como eu, que nunca conheceram uma «swap» mais gorda, com a firme certeza de que nunca ouviram falar em tal e não estão a mentir.

Para esclarecimento da minha alma simples e do mundo que me lê, o Económico dá uma ajuda: O que é um contrato 'swap'?

Ide em paz.

Natureza humana

Chegando lá vou ficar bêbada de querosene
Vou raspar os cabelos até perder a cabeça
«Solitária», A Banda Mais Bonita da Cidade

De sábio e de estúpido, todos temos um pouco

Parlare è da stupidi, tacere è da cobardi, ascoltare è da saggi.
Carlos Ruiz Zafón


Enquanto corro os olhos pela página inicial do Facebook, como se procurasse alguma coisa em concreto sem saber muito bem o quê, talvez uma boa notícia, talvez uma piada, talvez uma música inesperada que me acompanhe por todo o dia, paro os olhos numa entrada do blogue Sul Romanzo, onde leio aquela citação que, pelo que consigo perceber numa rápida pesquisa googliana, pertence ao romance A sombra do vento, um dos muitos que compõem a minha lista de leituras futuras, de carácter obrigatório. Numa tradução livre, uma vez que o mesmo Google não me deu grande resultado, poderia traduzir a frase como «Falar é para os estúpidos, calar para os cobardes, ouvir é para os sábios». Assim de relance, concordei - sei muito bem a espécie de cobardia que muita vezes se esconde debaixo da capa do silêncio, aquela incapacidade pegajosa de dar a cara pelo que se quer, ou não se quer -, porém, à medida que fui baixando a página, num scanning e skimming de fazer inveja ao mais proficiente dos leitores, o verbo que inicia aquele enunciado e o que o termina como que soaram na minha cabeça como a sirene grave de um cais. Para praticar a sábia arte de ouvir, alguém tem de praticar a tola arte de falar; o volume do que se ouve depende do volume que se fala, ou seja, há sabedoria sem tolice.

02/10/2013

Natureza humana

— Não te parece que estamos a ser patetas? — disse alegremente Egbert.
Se Lady Anne concordava, não o disse.
— Admito que a culpa seja, em parte, minha — prosseguiu Egbert, cuja jovialidade se dissipava. — Afinal, sou humano. Parece que te esqueces de que sou apenas um ser humano.
Saki, A Tela Humana, Vega.

Pela manhã

Todos os dias, pela manhã, abria a janela do quarto e conversava com o vaso das sardinheiras pendurado no beiral, conversava com os passarinhos, o gato preto que se enrolava nas pernas, a gata malhada que ronronava por festas, a ninhada bicolor que saltitava de entusiasmo infantil; conversava com o espelho, com as divisões da casa, reclamava com a máquina do café e a máquina de lavar roupa, indagava o jornal, questionava o frigorífico, falava consigo própria e com todos os objectos e seres da casa. Só não falava com pessoas, para essas guardava o desentendimento do mundo.

01/10/2013

A minha pátria amorosa é a língua estrangeira

Amar um homem com um nome estrangeiro é elevar o amor a um plano acima da perfeição. Não se pode amar um Mário ou um Manuel da mesma forma que se ama um Heathcliff ou um Romeo.