Sempre que acontece algum percalço/acidente com uma criança, lá vêm os moralistas da treta dar conselhos sobre a melhor forma de conservar hermeticamente os mais pequenos, como se a infância fosse um período amorfo em que tudo corre conforme o previsto e não há cá lugar a desvios.
Não defendendo a negligência dos adultos, que a há em muitos casos, talvez fosse bom que estes comentadores opiniosos se lembrassem do tempo em que foram crianças e dos sustos que terão eventualmente, e escrevo «eventualmente» porque devem ter sido todos uma espécie de cães de loiça muito quietos e sossegados que atravessaram a infância postos em sossego para grande consolo das almas dos seus ricos paizinhos, repito, os sustos que eventualmente terão dado aos adultos que os supervisionavam.
Assim de repente, lembro-me da história de a minha mãe ter enfiado um feijão no nariz e não ter dito à minha avó, pelo menos até ter ficado com o nariz tão inchado que só na farmácia a salvaram de males maiores; ou de o meu pai contar que uma tarde de Verão se esqueceu de avisar a tia da futebolada com os amigos, tendo deixado a senhora em prantos a pensar que ele tinha caído a um poço; ou daquela vez em que o meu irmão mais velho se escondeu junto ao telhado da casa dos meus avós e fez toda a gente procurá-lo a tarde inteira, porque teve medo de dizer onde estava; ou ainda aquela vez em que um dos meus irmãos mais novos decidiu ir ver as pedras da praia e desaparecer por uns terríveis instantes que nos convenceram que o garoto tinha ido mar dentro.