27/05/2016

Para arrumar o dito de vez

Há assuntos sobre os quais resisto a escrever. Os motivos podem ser variados e tanto podem pender para o lado da ignorância (para quê insistir em discorrer sobre o que não sei?), como para o lado do desinteresse. 

Por exemplo, as razões que motivam a criação e a linha editorial de um blogue são, definitivamente, sem interesse. Simplificando, cada um escreve o que quer, como quer, para quem quer, e, se eu não quero ler, não vou lá. Ponto. Acabam-se os dramas. Há tantos blogues interessantes e que vão ao encontro dos meus gostos que perder tempo com os que não me interessam nem me acrescentam é tão-só isso -- uma perda de tempo.

Outro motivo para considerar o assunto desinteressante é saber que todos, e são mesmo TODOS, os blogues são uma construção. Podem ser mais alinhados com as vivências diárias, podem ser temáticos, podem ser mistos, o que for, mas são construídos segundo um ideal, uma visão pessoal, por isso não podem ser lidos à letra, como se, a partir de algumas entradas, se tivesse um conhecimento holístico do autor.

Ter um blogue de fotografia não invalida que se goste de música; ter um blogue de música não invalida que se goste de telenovelas; ter um blogue sobre o dia-a-dia não invalida que se goste de moda; e daqui podíamos ir bem longe. São apenas opções de quem publica.

Por isto, é que leio blogues sempre com alguma reserva, tentando ler texto a texto, sem querer ver sequências onde, às tantas, não as há. E é por isto também que me aborrece seriamente que façam juízos de valor sobre mim, com base no blogue; ou que questionem as minhas opções só por acharem que devia fazer diferente. 

E é ainda por isto que gosto tanto deste pedaço da entrevista do Pedro Mexia ao IA ideia da exposição da intimidade é enganadora, porque as pessoas presumem sempre que sabem coisas que não sabem, fazem inferências baseadas em nada. Julgo que a intimidade diz respeito aos temas da poesia, todos os temas grandes da poesia são de certa forma íntimos – o amor e a morte são assuntos bastante íntimos. Mas um poema não é um diário. 

Os meus blogues servem para reflectir sobre momentos, sobre ideias que vêm e depois vão embora, e tanto falam da minha vida sentimental (às vezes, da falta dela), como do trabalho, como da família, como dos meus passatempos, como de acontecimentos com anos, como de tudo junto, como de nada. Não traduzem sempre (o que não quer dizer que não o possam fazer) o meu estado de espírito. Um blogue não tem de ser um diário.

Gosto de um certo tipo de textos, de um certo tipo de imagens, de um certo tipo de músicas, mas esse gosto não faz de mim necessariamente uma deprimida, uma pessimista, o que quiserem. Faz de mim apenas uma pessoa que gosta de um certo tipo de textos, de um certo tipo de imagens, de um certo tipo de músicas...

Este assunto é mesmo tão desinteressante que nem devia perder tempo com ele, mas, para não dizerem que não avisei, mais vale arrumar o dito de vez.