12/05/2016

Literatura de cordel

Quando era miúda, miúda de Secundário, por influência de duas colegas de turma, comecei a ler romances cor-de-rosa. Eram uma boa forma de passar duas horas à espera do autocarro para voltar para casa, ou de ocupar o tempo na praia, ou de arejar a cabeça nas viagens de comboio de regresso das aulas da Faculdade.

Guardei alguns, mais por questões sentimentais do que por razões estéticas ou de valor literário. O divertimento não tem de ser sempre elevado, superior, às vezes pode ser só cor-de-rosa.

Digam lá que não estão cheiinhos de vontade de o ler? Seus marotos!

As histórias eram redundantes, havia sempre o homem super rico, super charmoso, super solteiro, e havia sempre a rapariga super o contrário: ingénua, desconhecedora da sua beleza, pobre... só coincidiam no estado civil (de repente, lembrei-me de uns certos livros cinzentos e não deve ter sido por acaso). Ah, e claro, sempre as opositoras belas, sofisticadas, ricas e com interesses diferenciados pelo herói. Era assim, mais coisa menos coisa. Aquilo dava sempre umas grandes voltas, muitas confusões, às vezes acusações que facilmente seriam aceites nos postos da GNR ou balcões da APAV, mas que acabam sempre bem, resolvidos em duas páginas. A harmonia era para o resto dos dias das personagens (pelo menos das principais).

Ora, lembrei-me disto por causa de um conto que me acabou de cair no email. Li-o todo, trespassada pela certeza de que aquele conto mais não era do que um plano para um romance Harlequim. Estupefacta com o desenrolar da história e a abismada por ter sido escrito por alguém com alguma relevância e presença pública.

Definitivamente,  relevância e a presença pública não são garantia de qualidade. Ainda não acredito no texto mauzinho que li, onde uma agressão continuada de um homem a uma mulher se revolve em duas linhas e uma boa intenção. E nem se trata de feminismo ou vitimização, é tão-só um absurdo.

Pelo menos a Harlequin é assumidamente previsível (e, pelo que vi agora, tem capas novas).