16/07/2015

São oito horas

São oito horas e o comboio parte. Há um apito que marca o início da marcha, um apito que não é o assobio da mão levantada a acenar com uma bandeira, como se nos dissesse adeus, como se nos desejasse uma boa viagem. Nas estações e apeadeiros das nossas linhas, já nada é como dantes. Os apitos, os avisos, as cores, os bancos, as portas, tudo parecido, asséptico, muito longe da memória. A voz roufenha que anunciava a chegada do comboio foi substituída por uma voz computorizada que demorou muito tempo a saber o nome das terras que anunciava. Descontinuaram o Inter-Regional, desde esse dia o meu prazer por viajar descontinuou.

São oito e meia e o comboio chega. Longe do centro, Coimbra ainda é uma cidade respirável. A chegada é sempre mais rápida do que a partida. Há-de levar-me uma hora a voltar para casa. Um comboio climatizado há-de arrastar-me pelas linhas de ferro, mostrando sequências de estações vazias, de portas fechadas, pintadas de azul e branco e protecções de alumínio. Fecho os olhos e lembro-me dos comboios da minha infância, quando os meninos queriam ser maquinistas e as meninas passear muito.

Chego. A minha estação de parte incerta.