Tenho aquilo a que se pode chamar uma letra feiíssima. Desde
os tempos da Primária. Nunca as letras nos cadernos de duas linhas foram
redondas e certas, tão-só uns símbolos sem lei nem ordem.
Sempre sofri com isto. Ao longo dos anos fui tentando
mudar-lhe a forma e domar-lhes o feitio. Tive alturas de quase o conseguir,
outras de falhar miseravelmente.
É com o carvão e o giz que escrevo mais bonito. Como me
regalava em escrever no quadro de ardósia longas frases para dividir em orações
e depois contemplar os meus alunos com o pensamento triunfante: «admirem, em
adoração, a magnifica caligrafia da vossa professora». Entretanto, inventaram
uns quadros brancos onde se escreve com uns marcadores de bicos cada vez mais
finos, pelo que, cada vez que tinha de escrever as simples páginas dos textos a
ler, era com o pensamento angustiado que contemplava os meus alunos: «fiquem ceguinhos
e não vejam esta letra horrenda».
Felizmente, nunca o meu desejo se cumpriu, o que não evitou
que o meu Ministro adorado me tenha posto a andar – como a milhares de outros,
mas com o mal alheio posso eu bem.
Tenho então aquilo a que se pode chamar uma letra feiíssima.
Nem sequer é feia-chique, como a dos médicos ou dos artistas que rabiscam
autógrafos em todas as superfícies que lhes ponham à frente das mãos, inclusive
mamas. E isto é um grande obstáculo à minha liberdade criativa. Como é que vou
iniciar uma série epistolar com alguém, debatendo o sentido da vida, das artes,
do IRS, e das frieiras no Inverno, se o putativo recebedor de uma carta minha,
para lhe descortinar o conteúdo, teria de pagar umas notas grandes e gordas a
um intérprete de hieróglifos?
E não só! Uma vez segui um guia de
classificação/interpretação/qualquer-coisa-em-ão de personalidade baseada no
tipo de letra e quase tive um fanico. Num único texto meu, a minha letra muda
tantas vezes de forma, tamanho e inclinação, que a única conclusão válida a que
cheguei é que sou doida. E a minha personalidade é uma espécie de
montanha-russa a alta velocidade.
Andei, por isso, a tentar corrigir esta falha gravíssima, treinando
a caligrafia que consigo manter por três linhas seguidas. É com júbilo que vos
digo ser a dona de uma letra pequena e quase redonda. Ah, se ao menos eu
tivesse escrito este texto pelo meu punho, digitalizado e partilhado convosco!