A inconsciência sobre a passagem do tempo é uma bênção, uma espécie de trégua da memória, uma ignorância sobre o pretérito, que favorece um presente mais luminoso, mais leve. Bastou, porém, que na banalidade de uma conversa se perguntasse que dia era hoje... Foi com a força de uma torrente que todos os pormenores deste dia se apresentaram nítidos, terrivelmente concretos, absurdamente presentes, para me lembrar que as tréguas não duram para sempre e a memória é um adversário cruel.
No meio da cidade onde fervilhava vida, os portões de ferro abriam-se para um largo caminho de calçada, ladeado à direita por bancos, árvores e casas abandonadas – habitadas por memórias de gente –, à esquerda por frias capelas, detestáveis capelas que arrefeciam os ossos de todos os que lá entravam. Em frente a uma, difusas manchas negras agrupavam-se, suportando nas pernas o peso dos ombros, alguns aceitavam a oferta dos bancos de cimento e abandonavam-se à espera.