Está frio. Na rua
sopra uma aragem cortante que me faz cerrar os olhos e me maltrata as
bochechas. São sensíveis as minhas bochechas, pouco menos sensíveis que o meu
coração, muito mais sensíveis que as mãos que se escondem nos bolsos, à procura
de uma brasa quente. Está frio. Evidência redundante, olhando o calendário que
me diz que Novembro exala os últimos suspiros, em pequenas baforadas de calor
que evaporam ao ar. As frentes frias varrem as extensões que ousam atravessar-se
no seu caminho, querem deixá-las para trás das costas, como seres mínimos,
congelados na rotina de cigarras pouco precavidas. O chão está escorregadio, é
preciso cuidado para não escorregar – o chão oferece pouco conforto em dias
assim, ainda que seja o único capaz de verdadeiramente nos amparar nas quedas. Os
casacos não travam a extinção do calor, o afastamento do ardor do corpo; enrolo
fios de lã entrançados, no pescoço, subo a gola e resisto.
Está frio. Ainda assim,
há um pensamento insistente que me aquece, como o crepitar recorrente da
lareira, como uma manta quente, o chá a ferver. Esse pensamento leva-me a dias
menos frios, a lugares menos expostos, a horas mais tardias, a um consolo da
alma. Viajo à boleia da memória e sorrio, enquanto caminho – é um vício que
tenho e espanta quem passa por mim, vejo-lhes os olhares agudos e sorrio ainda
mais. É um desejo de multiplicação desse momento que me repassa os ossos: a
aproximação tímida, um certo medo, uma ousadia, a prisão dos braços, o descanso
das bocas.