Há uma certa poesia no esbardalhamento. Uma pessoa sai de
casa, composta, decidida, confiante, apressada. Uma pessoa, sem o prever, sai
para a rua e esbardalha-se no meio do chão. À sua volta o tempo trava a fundo:
a pasta/mala; o chapéu-de-chuva, se o tiver; o saco da marmita, se o levar;
tudo a voar em câmara lenta. O corpo alargando-se como um esquilo-voador em
posição de salto, as mãos abertas a tentarem segurar-se ao vazio, os esgares de
quem vê tarde demais o esbardalhamento, o grito de quem não acredita que se vai
esbardalhar na rua mais movimentada da cidade, antes de entrar ao serviço, no
dia em que vestiu uma roupa nova. Slow motion – porque o inglês sempre dá um
certo consolo quando falta a dignidade de um Neo pelos ares. A multidão incapaz
de avançar, travada igualmente pela desaceleração do tempo. As cabeças a
virarem-se na direcção do esbardalhamento, alguns gritos solidários, as mãos a
encolherem-se para segurar o susto em vez de se esticarem para agarrar quem vai
em voo planado. Esbardalha-se. Positivamente: corpo, mala, pasta, marmita,
tempo lento, susto, gritos, esgares de horror, mãos esticadas, a roupa nova,
tudo a raspar pelo chão, até que a Física faz o que tem de fazer.
Há uma certa poesia no esbardalhamento. O esbardalhamento é
poético.