14/09/2012

O salão de baile


Começa com nada. Não é isto,
começa sempre com alguma coisa.
Começa com um pensamento.
Assim está melhor. Um pensamento,
dos pequenos, na verdade, distraído, que
se insinua discretamente. Não lhe ligo.
Começa, por isso, a deixar pequenos
sinais da sua existência: uma memória
sugerida pelo trivial, um cheiro, uma
sensação. Depois, perdida a timidez inicial,
ei-lo a alma da festa. Traz outros pensamentos,
memórias, sensações. É já uma miríade.
A cabeça toda ocupada por ele que ri e
canta e dança e é rei.
Depois chega ela. Sedutora, atrasada, para
se fazer notar com mais espanto,
os olhos todos nela - desejam-na, temem-na.
A saudade,
diva perfeita, deixando o corpo em cacos.