O que eu quero mesmo é apaixonar-me. Quero o coração a bater forte, a ansiedade das horas contadas, a certeza de te saber à minha espera. Quero trocar confidências inocentes e beijos esquecidos, escrever o meu nome em pequenos papéis que espalho pelos teus bolsos, partilhar contigo as gomas, os segredos, os chocolates e as nuvens de algodão que sempre estarão no nosso céu. Quero caminhar contigo de mãos dadas, contar as estrelas dos teus olhos, aninhar-me na paz dos teus braços.
Não quero estar contigo num dia com hora marcada. Que chegues na pressa, programado para o que tens de fazer e me tomes de assalto e te uses de mim e finjas que sou tudo o que queres e me deixes largada, me vires as costas sem saber o que dizer. Não quero o embaraço da lucidez, os corpos nus que se escondem nas roupas despidas com postiça deferência. Não quero a conversa de circunstância, os mal-disfarçados olhares contínuos para o relógio e a urgência de estar noutro lugar. Não quero voltar para casa, contar "mais um" que foi "mais nada". Não quero sentar-me na cama e lembrar que há mais do que isto.
Quero tardes sentadas em bancos de jardins, mãos que procuram as minhas, ouvir o que os teus dedos dizem aos meus. Quero o coração a bater no compasso da paixão. Quero o que é simples, a ternura que não precisa de planos escritos em agendas, o que acontece pela soma de duas vontades. A+B=C. Quero ouvir os teus segredos sussurrados pela satisfação do teu coração aquecido, contar as riscas da tua camisa enquanto as tuas mãos adivinham os fios do meu cabelo, os nossos pés adormecidos em sereno repouso. Quero que me apertes no silêncio que fala mais alto do que as nossas palavras e é poesia - o céu e a terra, um livro aberto de emoções escritas de olhos fechados pela pontas dos dedos que escrevem letras imaginárias nas linhas das nossas costas.
