Há algum tempo atrás, verbalizei a minha intenção de me apaixonar. Não precisava de ser nada muito complicado ou exigente, só uma paixão que fosse bonita enquanto durasse. Assim aconteceu. Só não contava com que o veio depois.
Agora quero tudo menos apaixonar-me. Não quero que o meu tempo dependa do tempo de um homem, nem que a minha boa disposição se meça pelo retorno que ele me dá. Não quero. Quero, e preciso de manter, esta tranquilidade que espera por qualquer coisa que não sei bem o que é, mas sei estar mesmo ao virar da esquina, prestes a acontecer.
Não quero, por isso, apaixonar-me. Mesmo que, a longo prazo, eu não consiga ser a única coisa que sempre soube que iria ser: mãe. Lembro-me bem do dia em que decidi que, quando fosse grande, ia ser mãe de profissão. Não queria ser rica, nem famosa, nem bem-sucedida num trabalho, apenas mãe. Tinha 3 anos e um bebé careca com metade do meu tamanho.
Por esta altura, pensava já ter uma prole considerável. A minha mãe teve o quarto filho com a minha idade. Se ela conseguiu, então eu também conseguiria. Não consegui. As pessoas simpáticas que conheço lembram-me que estou a ficar velha. Estarei.
Ainda assim, não me quero apaixonar. Não sou a salvadora de pátria alguma. Estou cansada de pessoas mal-resolvidas, de paredes que nunca estão acabadas, da penosa tarefa de pintar a tinta que alguém descascou. Resolvam-se. Cresçam.
Eu fiz o mesmo. Agora sou só eu. Cupido, vai-te embora, a tua pontaria é uma treta. Se voltas aqui, levas chumbo no rabo, em vez de setas na aljava.