Há uma grande dificuldade em assumir as perdas como elas são. Floreiam-se os factos com metáforas mais ou menos gastas. Cruza-se a semântica da morte, com a semântica do fim amoroso, presta-se o cruzamento a grande confusão - Ele partiu, ele foi embora, ele não volta, nada será como antes... e o leitor a imaginar que foi mais um romance que chegou ao fim.
Os amores acabam. Manifesta-se a perda em textos longos e sentidos, a culpa é quase sempre de quem vai, a inocência de quem fica. A poesia de perda amorosa enche páginas, porque O amor é fogo que arde sem se ver** e se tu viesses ver-me hoje à tardinha***, tudo voltaria ao que era. A infindável banda sonora de quem canta o que sentimos e canta como nos deveríamos sentir espalha-se pelos mundos virtual e real - a mesma música ouvida à saciedade. As investigações privadas, para saber como o outro está, o vaguear pelos mesmos espaços na esperança de um reencontro, as vinganças de quem quer mostrar que já está noutra. Tudo acabou, mas tudo é possível.
Depois há a morte. Ele realmente partiu, foi embora, não volta e nada voltará a ser como antes. Mas não há culpados nem inocentes, só a vida a ser vida na sua estranha forma de ser. A poesia não chega, a música não consola. Não há lugar a investigações, reencontros ou vinganças. O silêncio como companhia. Tudo acabou, nada mais é possível.
* W.H. Auden, Funeral Blues
** Luís Vaz de Camões, Amor é fogo que arde sem se ver
*** Florbela Espanca, Se tu viesses ver-me
