14/02/2013

Porque eu prometi a mim mesma não escrever sobre este dia


A casa está em silêncio. Saíram todos. Cada um tinha que fazer noutro lugar qualquer. Cada um levou a companhia que lhe correspondia. No fim das vezes todas que a porta se fechou, a casa calou-se. Fiquei eu. E o silêncio. Abro livros e leio histórias alheias. Procuro música, é preciso ouvir outra voz que não a que se calou dentro de mim. Vive-se na terceira pessoa o que nos é negado. Há quem diga que é melhor do que nada, há quem diga que é preciso uma alma generosa para apreciar a fortuna alheia. Há quem diga muitas coisas. A maior parte delas para não estar calado. É sempre o silêncio que é preciso emudecer. Batem-se palavras contra a parede, como bolas sem sentido. Enquanto cada uma ecoa no vazio, a casa parece menos triste. São as coisas miúdas que se juntam, como berlindes no bolso, a pesarem e a magoarem a ponta dos dedos, cada vez que se faz pontaria ao buraco. Conto um palmo e meio. Se bater no grande é meu. Falho. O principal do jogo é jogar. Ganhar é um tiro de sorte. E o resto é poesia em folhas de papel amarelado, escrita por quem não percebeu que o futuro eram os jogos de tabuleiro.