21/10/2012

Nenhuma morte apagará os beijos


Nenhuma morte apagará os beijos
e por dentro das casas onde nos amámos ou pelas ruas clandestinas da grande cidade livre
estarão para sempre vivos os sinais de um grande amor,
esses densos sinais do amor e da morte
com que se vive a vida. 

Aí estarão de novo as nossas mãos. 
E nenhuma dor será possível onde nos beijámos. 
Eternamente apaixonados, meu amor. Eternamente livres. 
Prolongaremos em todos os dedos os nossos gestos e, 
profundamente, no peito dos amantes, a nossa alma líquida e atormentada 
desvendará em cada minuto o seu segredo 
para que este amor se prolongue e noutras bocas 
ardam violentos de paixão os nossos beijos 
e os corpos se abracem mais e se confundam 
mutuamente violando-se, violentando a noite 
para que outro dia, afinal, seja possível.  

Joaquim Pessoa, in Os Olhos de Isa




[este blogue ainda está de castigo. vim só partilhar um poema que podia muito bem ser meu]