Todos os dias, por volta da
meia-noite, hora em que se deita, o quarto apaga-se, nas paredes dançam as
sombras projetadas pelas luzes da rua que entram, sem pedir licença, pelos
vidros das janelas de sacada, nuas de cortinas. Umas vezes, entrelaça as mãos
sobre o abdómen, outras tapa os olhos com os braços ou cruza-os por cima da
cabeça, o corpo estático, os olhos fechados, a audição a elevar-se acima dos
outros sentidos – apenas ouve a música, o bater do coração e o seu respirar, no
mesmo compasso da solidão. As horas passam-lhe numa cadência lenta, tão lenta
que lhe levam a pele, lhe devoram os ossos, lhe queimam o sangue que lhe corre
nas veias. O seu interior é em tudo semelhante a uma caverna escurecida, a
profundidade de um monturo, onde goteja uma tristeza viscosa e espessa que o
cobre com a sua goma lodosa.