Antes de mais, deixem-me verbalizar um pensamento: NÃO QUERO ANIMAIS DOMÉSTICOS!
Pronto, mais aliviada. Ui, soube mesmo bem... Onde é que eu ia? Ah, sim, temos mais gatos. Pois que sim, que eu tenho mais gatos, pois que não são vocês e este plural é aquilo que se chama plural majestático e serve só para os fins literários. Mas estava eu dizendo que tenho mais gatos, não de Violeta, a gata, mas de Mel Maria. E é aqui que chegamos ao ponto que me leva a concluir que realmente bichos domésticos em minha casa só se forem de plástico (lembram-se do meu aquário?) ou de loiça.
Comecemos isto por algum lado, espécie in media res, e contextualizemos a dita aventura do degredo. As sô donas gatas andaram doidas com o cio meses e meses. Vai daí que na única vez que a minha mãe se esqueceu de lhes enfiar as pílulas (pírulas, para quem é da aldeia), as assanhadas correram os gatos todos da vizinhança e combinaram de encher a casa de filhotes assim ao mesmo tempo. Isto leva-me à hipótese de ter sido uma orgia e tal, mas não quero imaginar sequer que as minhas gatas se divertem mais do que eu.
Assim sendo, ontem pelas seis e tal, sete da manhã, a casa acordou com a estridência de Vi, a gata. Emoção, choraminguice da minha mãe e a esperança de uma arregaçada de bichos, tal era a barriga. Nada disso, a menina pariu um, unzinho para amostra. Como era a primeira ninhada (uma ninhada de um...), encarámos a coisa pelo normal. O pior veio ao fim da noite quando nos apercebemos que o bichinho estava mais frio do que quente e chorava de fome... Sim, desde que tinha nascido, não tinha mamado, porque a mãe não tinha leite.
Aqui começa o drama, ou acontecia um milagre de noite ou a criatura ia ter uma morte daquelas dolorosas. O que aconteceu? Nada. A mãe continua sem mama e o bichinho a sofrer. Decidi, por isso, que alguém tinha de fazer alguma coisa e, depois de uma tremenda choradeira (sim, que eu sofro muito com isto), fui buscar uma caixa de plástico e uns algodões. Mais valia matá-lo de vez.
Depois de uma chatagenzinha psicológica com o meu irmão a seguir a mim (não me olhem com esses olhos que foi ele que trouxe as duas gatas) e quando eu já estava a embeber o algodão em álcool e acetona, ele resolveu ir procurar a Mel Maria, para ver se ela lhe dava mama.
Eis senão quando, caríssimos, a bichinha já tinha duas bolinhas de pelo com ela, paridas no roupeiro dos papás. Assim que ele pôs o gatito, haviam de o ter visto agarrar-se à mama. Mas, rás parta os mas, há qualquer coisa que não bate certo e eu tenho para mim que o gatito não se salva, porque aposto o que quiserem que ele é prematuro. Nota-se pelo tamanho, mesmo pela cabeça e as patas, comparando com os outros, ainda não estão tão formadas.
Fui buscar um cesto, pus camisolas de lã velhas e fofinhas, com todo o cuidado pus a Mel lá, com os gatinho, e - vá, adivinhem, teve de correr alguma coisa mal -, vi que estava um pequenino morto, encostado à parede. Das duas uma, ou foi o primeiro e ela não soube bem o que fazer (ele estava cheio de placenta) ou, parece-me mais lógica, nasceram dois muito seguidos e aquele ficou esquecido.
Pelo meio, assisti ao nascimento de dois. Um, ainda ela estava no roupeiro, outro nasceu mais de uma hora depois. Acho que não vem aí mais nenhum, até porque foram cinco gatinhos grandes. Nasceu um escuro como ela, outro cinzento tigrado, dois ruivos e um branco (o que morreu).
Quanto ao outro, lá está, não deve passar de hoje. Pelo menos não morre sozinho, já que a desnaturada da mãe já foi laurear a pevide e deixou-o sozinho. É uma tolice, eu sei, estou a humanizar uma morte de um bicho que nem ficaria cá em casa, mas custava-me vê-lo morrer naquele sofrimento gelado, no silêncio de quem já nem força tem para miar.
Agora, vou fazer umas festinhas à Mel - está tãaaao carente! -, pôr mais roupa a lavar e ver se ela já pariu mais algum.
Já vos disse que não quero animais domésticos em minha casa? Pois, parece que sim, foi por aí mesmo que comecei.