No dia em que me deixaste plantada a olhar para um
rectângulo estático na minha mão, tive a certeza de que morreria. Foi um
pensamento exagerado, daqueles que se têm quando se perde o primeiro amor. Não que
eu não soubesse que estavas a um passo de o fazer, claro que sabia. Deixa-me
dizer isto de outra forma, a minha metade racional sabia, a minha metade
emocional estava no auge da negação. Assim faz mais sentido, até porque, como
bem sabes, funcionámos sempre às metades e pela metade – só os fracos precisam
de coisas inteiras.
Não é de admirar, por isso, que metade de mim se tivesse
conformado e a outra metade quase falecido. O que não sabes é que, durante mais
de um ano, vivi como se não tivesse lado direito: a cavidade torácica estava
vazia e o braço parecia que nem era meu. Fatalidades que só uma descendente de
uma linhagem de mulheres passionais e trágicas é capaz de conhecer.
É agora que fazes aquela expressão de quem não diz, mas
pensa, tu és realmente muito estranha.
Não foi bonito o que fizeste. Nem nada elegante, vindo de um
homem que gostava dos pequenos rituais burgueses e apreciava a formalidade dos
gestos. Não foi bonito, não foi sensato, não foi eficaz. Foi cruel, mesquinho e
desrespeitoso. Também cobarde.
Naquela altura, ainda não tinha aprendido a arte de deixar
cair, deixar ir, e mais coisas em ir que te lembres. Ainda achava, ó
inocência!, que uma palavra era suficiente, que devia haver uma certa
consideração entre pessoas que se quiseram bem, que as histórias precisam de um
fim, quando as personagens sabem que não vai haver continuação.
Talvez agora entendas a reacção exagerada de quase falecimento,
e possas até perdoá-la. Era ingénua, era crédula, uma optimista irritante, até
me teres ensinado o sofrimento. Continuo igual, só menos ingénua, menos crédula,
menos optimista.
Depois que recuperei o meu lado direito, fiz tudo o que me
disseste: arranjei um gajo do Norte, um bonzão, culto e tal (no «e tal» fica o
resto que não é decente escrever aqui). Agora é que ia ser! Não foi… Morreu-me!
Isto é, morreu-se ele mesmo sem ajuda de ninguém. Achas isto bem? Previste-o
nesse teu futurismo certo e inabalável do que eu seria?
Ironicamente, também ele me deixou plantada a olhar para um
rectângulo estático, à espera do que não veio. Eu sei que insistias muito na
teoria da ciclicidade da História, podias era ter-me dito que seria a minha história a girar neste looping enjoativo.
Não vais levar a mal que te diga que vocês se confundiram um
bocadinho, que a voz que me disse a morte dele também me disse a tua, que o
lugar onde o deixei também te deixei a ti.
Depois disto, tive a certeza que morreria, não de amor, mas
de desgosto. De mágoa. De decepção. Fez-me tanta falta, naquela altura, a
habitação do teu abraço, onde tudo fazia sentido, e as tuas palavras a dizerem
que tudo ficaria bem, que sobreviveria.
Outra coisa que não sabes é que, por princípio, não acredito
nas pessoas. Elas podem elogiar-me, destratar-me, cantar-me, o que de bom e de
mau for, que eu não acredito. Não as levo a sério – se for em forma de elegia,
menos ainda. Mas em ti eu acreditava.
No outro dia, enquanto procurava informações na nave-mãe,
encontrei-te – bolas, continuas um totó de primeira! Depois, fechei a janela e
não voltei a querer saber de ti. Então, porquê este texto? Porque me ocorreu
escrever sobre isto, enquanto limpava a louça. As minhas motivações sempre
foram um pouco estranhas (ou estou só a espantar os meus fantasmas).
Tudo isto lembra-me aquele poema do Vasco Graça Moura, «Blues
da morte de amor», que não me fez qualquer sentido quando o li antes de ti e agora, depois de ti, parece ter-me sido
dedicado.
já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida.
mas afinal não morri, como se vê, ah, não,
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida.
mas afinal não morri, como se vê, ah, não,
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.
Olha, safei-me! Mesmo que não veja para onde, pelo menos
larguei-te – a ti e a todos.


