30/03/2016

O caminho não se faz a direito

zannycat:


Soft Sand by © Anne Ueland
Soft Sand by © Anne Ueland

Fugimos ao cativeiro do nosso passado antigo com a promessa de um lugar novo, onde viveremos aquilo que não tivemos. Saímos, levando areia nos bolsos, perseguidos pelos fantasmas das pequenas decepções. Haveremos de passar muitos dias no deserto, enterrando os pés na areia, como âncoras, para não voltarmos atrás; lavando os vestidos com a água da nossa mágoa. Os dias hão-de correr, enquanto perseguimos oásis enganadores e apagamos os passos que a areia falha em conservar. Desistiremos do caminho que fazemos para a frente, recuperando o que deixámos para trás. Desistiremos novamente do retrocesso e seguiremos rumo à maravilha, com vigor renovado. Ignoraremos os marcos de pedra que nos gritam que um dia vivemos presos e estão por todo o lado, lembrando aos outros a nossa vergonha. E seguiremos, apesar de tudo, com duas certezas em mente: haveremos de chegar, é a primeira. A segunda: o caminho não se faz a direito.

29/03/2016

Não sei como explicar

Francesca Woodman @Foam Amsterdam
Angel Series, Rome, 1977-1978



Gastei as palavras, não sei como explicar
o que o meu coração sente. É silêncio
que falo, é silêncio que escrevo. Presa num vácuo
que se dilata à medida que o meu corpo se
movimenta.
As folhas dos meus cadernos estão vazias, nos
dicionários os vocábulos têm cores desmaiadas.
Sinto sentimentos que não sei definir, um cansaço
na alma e um peso nas mãos.
Não sei do que falo.
Eu não falo.
Tudo é silêncio. Árido, frio,
silêncio que ensurdece.
Gastei as palavras. Não sei como explicar
o que o meu coração sente.

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Silêncio.

As palavras escritas foi tudo o que sobrou

Je te laisserai des mots - Patrick Watson

23/03/2016

A melhor solução é sempre a mais simples

Ou como eu complico a minha vida desnecessariamente.


Por imposição da ocasião, tenho de me vestir a parecer que acabei de vir da Idade das Trevas. Não seria muito difícil, se eu não tivesse dado uma limpeza nos armários e não tivesse mandado fora tudo o que era blusa, saia e vestido com aparência mais que velha. Ando, por isso, há uma semana a vasculhar o fundo das gavetas a ver se salvo de lá alguma coisa que me seja útil. Depois de muitas imagens vistas, dicas, truques, camisas espalhadas e cintos de franjas, olho para o vestido preto que trago vestido (este texto está pródigo em conjuntos de palavras bonitos) e experimento um cinto, mais uma fita, mais um lenço e... está feito! Tanta hora de pesquisa, tanta remexidela e a solução estava aqui à mão de semear! Que é como quem diz, lindamente vestida em mim mesma. Venha a feira!

21/03/2016

Para celebrar a Poesia

Dois poemas de um poeta que é um prazer ler.
É uma pena que não esteja nas escolhas previsíveis nestas ocasiões.


Essa paragem do teu pensamento

É como se não chegasses ao fim do teu pensamento.
Como se houvesse um corte entre o que pensas
e o que devias ter pensado ainda para atingires
o ponto mais elevado desse pensamento.
Essa impressão de que alguma coisa ficou por dizer,
como um som que deixasses de ouvir,
essa paragem do teu pensamento
que se recusa em prosseguir,
que se dissolve no sangue onde a escrita permanece,
essa cessação de movimento é a suspensão
da tua própria linguagem.


Fernando Esteves Pinto (2010), Área Afectada, Temas Originais.



O amor que ela sente é o silêncio

O amor que ela sente é o silêncio.
Constitui um ramo sentimental da sua própria solidão.
Às vezes o amor cresce-lhe no interior da ausência
e a sua felicidade mal adubada
adoece-lhe as raízes da vida.

Subimos sempre ao corpo de quem amamos
mesmo que a razão seja obtida a partir
do silêncio de certas palavras
uma forma emotiva de transformar em vazio
todas as verdade que não sabemos aceitar.


Fernando Esteves Pinto (2010). Área Afectada. Temas Originais.

Fartura

O início da Primavera celebrado com poesia. Que dia melhor do que este para confluírem as boas notícias? Toda a espera é uma privação e toda a provação redunda em fartura. Em bom tempo!

19/03/2016

Só silêncio e ausência e mais nadinha

lordbyron44:

Ballerina - Photo by Daryan Volkova
Ballerina - Photo by Daryan Volkova


"É possível deter o momento, fazê-lo entrar na nossa concha, falar-lhe ao ouvido e contorcê-lo, golpeá-lo no sítio que mais dói só para depois o deixar ir outra vez e ficar só silêncio e ausência e mais nadinha."

COSTA, Rui (2008). A resistência dos materiais. VNG: Exodus. pág. 5

(publicado pela primeira vez neste blogue a 13/01/2012)