"É possível deter o momento, fazê-lo entrar na nossa concha, falar-lhe
ao ouvido e contorcê-lo, golpeá-lo no sítio que mais dói só para depois o
deixar ir outra vez e ficar só silêncio e ausência e mais nadinha."
COSTA, Rui (2008). A resistência dos materiais. VNG: Exodus. pág. 5 (publicado pela primeira vez neste blogue a 13/01/2012)
Mãezinha percebe até o que não lhe digo, pelo que decidiu mandar-me catadupas de anedotas, por email. São tão más, mas tão más, que me rio sempre. E ela lá vai levando a água ao seu moinho.
Para consolo e descanso de quem me lê, é preciso que alguns nevoeiros de dúvida sejam dissipados. Não sou, nem nunca fui, pessoa de andar a transferir para uns o mal que outros fizeram (também não posso jurar sobre o que há de mais sagrado que NUNCA o tenha feito, só posso garantir que não o faço como forma de vida), vai daí que, lá porque proferi uma afirmação sobre uma ou duas pessoas (duas ou três, vá) do sexo masculino que cruzaram a minha vida, não quer dizer que agora tenha para mim que TODOS os frágeis seres másculos que povoam o mundo entrem nessa tal afirmação. À partida, nem deveria ser preciso sacudir nevoeiros, mas, para que não haja nenhum espírito de erro no nosso meio, mais vale fazê-lo.
Homens fofos e queridos e puros e castos, vinde a mim sem medo, que eu não mordo (salvo casos particulares, em território demarcado, cumprindo as normas de segurança).
Não me lembro como descobri a Capicua, mas lembro que desde a primeira música me encantei. E esta música... esta música é boa demais. Serei a louca, talvez, pelo menos hei-de tentar.
Sereia Louca - Capicua
Ela queria usar sapatos, dançar de salto alto
Beijar a boca de um homem, embrenhar-se no mastro
Queria perder as escamas e rasgar as barbatanas
até que pernas humanas lhe saíssem da carne
Poder conhecer o doce o amargo e o ácido
Ali tudo era salgado azulado e aquático
Partir o aquário deixar de vez o Atlântico
E rogava por ajuda dos marinheiros com o seu cântico
Mas seu cântico era grito que não suportavam
E só Ulisses vivera depois de a ter escutado
O seu canto era um feitiço carpido como o fado
que levava navios perdidos para outro lado
Eu tenho um búzio que me diz coisas estranhas ao ouvido
Sua voz era livre como ela não era
Como sempre quisera que o seu corpo fosse
E por cantar o sonho e a sua quimera
Era para as almas como um cúmplice
Forte como um coice, como uma foice
trespassava gelada o silêncio fundo da noite
Enquanto a sua melodia como a maresia
Envolvia em maravilha a lonjura da sua corte
Chega a maré vazia para lavar em água fria
a sua melancolia e o medo da morte
Não é que a lágrima é da mesma água salgada
Gritava entre o mar e a estrela da madrugada
Eu tenho um coração de esponja que cresce com a tristeza
Sereia louca que vai deixar tentar deixar o mar
com a coragem de quem sai do seu habitat
Sereia louca que vai gritar, chorar,
bramir, esbracejar tentar até conseguir
Sereia louca que vai sentir a falta do mar
sentir a falta do ar que há neste lugar
Sempre que digam que é louca,
é melhor muda que rouca,
eu fico nua que é roupa que aperta o respirar
E grito ainda mais alto neste barco suspenso
que pior que o meu canto há-de ser o meu silêncio
pior do que o meu canto há-de ser o meu silêncio
Eu tenho um búzio que me diz coisas estranhas ao ouvido
Eu tenho um coração de esponja que cresce com a tristeza
Não é que a lágrima é da mesma água salgada
Gritava entre o mar e a estrela da madrugada
E grito ainda mais alto neste barco suspenso
que pior do que o meu canto há-de ser o meu silêncio
Os homens que amei foram uns idiotas e tão parecidos nos seus comportamentos que considero pedir ajudar profissional para descobrir que raio tenho eu que só acha graça a... idiotas. Estou cansada de escrever por eles, sobre eles e para eles. Acho que é desta que vou começar a falar das insignificâncias dos meus dias.
Eu bem sei que nos últimos meses não tenho sido propriamente assídua nos vossos espaços, que alguns até se podem queixar que me deram mais do que lhes dei, outros até me empurraram ali para o cantinho do esquecimento, que é para onde vão os que têm a mania de que são importantes.
Um dos motivos (o maior, pelo menos) destas ausências e retornos a conta-gotas está ligado à guinadela que dei ao sentido da minha vida. Depois de anos em descampados de recibos verdes, precariedade e auto-flagelação com os dez volumes da Peregrinação, decidi travar a fundo, virar perigosamente para outro lado e começar um negócio meu.
Têm sido meses intensos de tentativa e erro, experimentação, contentamento, desespero, bater com a cabeça em todas as paredes até ao infinito, idas aos correios, pesquisas e mais pesquisas e ainda mais pesquisas sobre tudo e sobre pares de botas.
Mas também foram meses de ver os meus doces a irem para outros países, outras pontas do país, a receberem críticas favoráveis de pessoas que não conheço e um gozo tremendo de ver a minha Colher a crescer e a ganhar asas.
Hoje, consegui finalmente deixar o blogue do meu negócio mais próximo daquilo que imaginei e sinto-me tão estupidamente feliz que estou bem capaz de chorar (também pode ser das hormonas).
Tudo é feito por mim, desde as fotos aos doces, e só não faço os frascos porque não tenho forno para os cozer...
Para quem já ouviu falar vagamente, A Colher Gulosa é o nome do meu negócio (depois de ter mandado dois canudos às malvas) e este é o blogue.
Agora vou experimentar um novo doce para o Dia do Pai. E cantarolar um bocadinho (e talvez derramar umas lágrimas)