16/12/2015

Se a música não fizer a parte dela...


Seafret - Oceans

15/12/2015

A trapezista

 
 


Começou a subir aos telhados.
Começou a resolver neles muito tempo.

(Primeiro, os dedos na janela mais acima.
Depois, era o cabelo que subia.
Um pulso a içar a alma para outra cidade.)

Daqui vê-se tudo.
Os gatos deitam-se e lambem-me os pés.

Os pés sobem molhados pela chuva.
Os homens congeminam negócios estendidos nas mulheres.

As crianças gritam dentro das casas quando os sonhos
lhes arrancam pedaços das costas.

Os homens caminham com quadros pendurados nos joelhos
As pessoas escrevem artigos nas revistas
sobre o que seria o mundo se alguém do outro lado as ouvisse

E é então que eu saio
e sobre os ombros das árvores disponho a economia
cravando-lhe os dentes ou
roçando apenas o meu sexo
no trapézio

Inclino-me sobre a sua demência particular
neste dia emparedado entre sucessos e crisântemos
e as crises
e ouço as ruas onde lá em baixo uma pessoa
ajeita um pouco melhor os ossos

Aquela mulher fabricou uma cozinha resistente a tudo
atravessou os séculos assoberbada de electrodomésticos
inexpugnáveis – ao fim-de-semana envolvia-os em celofane e espanava
um pouco melhor os filhos.

Mais à frente o parque onde as estratégias se apresentam -
o presidente à frente, seguido pelo hidrogénio ou o hélio
– conforme a posição do sol no buço da democracia –
e o écran reflectindo o écran e a
maresia.

Aqui no alto rodo os pés e alongo mais os braços.
Nos primeiros meses estendia-me com o corpo para baixo e deixava
o sangue inundar a cabeça. Via manchas vermelhas da
menstruação por entre os amigos que prometia esquecer.
Eles traziam-me os seus corpos nus e eu aquecia as suas unhas
cravadas pelo vidro.

Dizem: se os videntes permanecem firmes perante pequenos tiranos
podem chegar a suportar a presença do incognoscível.
Todo o conhecimento é o resultado de uma deslocação.
Se é verdade que todos os caminhos são iguais?
Sim. Pois não te conduzem a lugar nenhum.
Se quiseres fazer como o feiticeiro índio da tribo iaqui,
perguntarás: e esse caminho tem coração?

Perdi a minha agenda de fenómenos electromagnéticos.
Não sei por isso de que lado esperar
este súbito irromper
da melancolia.



rui costa
metphoria
guimarães2012
fundação cidade de guimarães
outubro 2012

 

14/12/2015

Nem este blogue o é

A ideia da exposição da intimidade é enganadora, porque as pessoas presumem sempre que sabem coisas que não sabem, fazem inferências baseadas em nada. Julgo que a intimidade diz respeito aos temas da poesia, todos os temas grandes da poesia são de certa forma íntimos – o amor e a morte são assuntos bastante íntimos. Mas um poema não é um diário

Pedro Mexia, em entrevista no Jornal I



(lido no blogue da Rita Nashe; realce meu)

12/12/2015

Furiosamente

baking:

11/12/2015

E no regresso é isto

Uma pessoa escavaca-se no blogue, esbardalha-se em músicas, letras, imagens, cenas... e passam dias sem que alma vagueie neste espaço. Um dia, tropeça em Hans Bellmer, gosta do que vê, partilha e em dois dias o homem chega às 200 visitações.
 
Sem ter punch line que acabe com isto, é melhor ir secar o cabelo e passar um creme nas mãos.

Viver dói

Percebemos toda a nossa irrelevância quando, no momento em que mais precisamos das nossas pessoas, elas decidem abandonar-nos.

09/12/2015

Hans Bellmer

07/12/2015

A terceira panela

Tenho a terceira panela ao lume. O açúcar desfaz-se na água e, correndo tudo bem, há-de começar a caramelizar e eu hei-de juntar-lhe bananas às rodelas e deixar apurar. Cheira por isso a banana na cozinha, uma banana madura e cheia de pintas. É a terceira panela que ponho ao lume, hoje. As encomendas chegam sem aviso e são sempre em grande, mesmo que sejam de frascos pequenos. O açúcar vai-se desfazendo, a fruta cozendo, os frascos enchendo. A cozinha cheira a banana, mas já cheirou a pêra e a vinho do Porto, a abóbora e há-de cheirar a maçã -- com pequenas notas de limão pontilhadas de canela. São bonitos os frascos que vou enchendo e onde hei-de colar rótulos lilases e atar fitas douradas. A terceira panela ferve no lume. Vejo o açúcar a desfazer-se na água. Não sei se é o açúcar se sou eu.

06/12/2015

O castigo do exilado

é saber que nunca regressará a casa.
 
Cuca, a Pirata*
 
 
 
*Desculpa, Cuca, mas não consegui esperar pela resposta. :)
 

04/12/2015

Speaking of Truth


LALEH