O meu passado está sentado à minha frente e olha-me com olhos de lince. Sabe, por aturada experiência, que a verdade se esconde mais no fundo dos meus olhos do que na superfície dos meus lábios. Digo-lhe que está tudo bem, porque está mesmo bem, se não tudo, quase lá, numa esquina do tempo que se aproxima a passos largos do concreto. Acredita. O meu passado que me olha com olhos de lince sentado à minha frente convence-se da minha verdade.
O que o meu passado de olhos felinos não sabe é que o meu fugir pela janela e o meu esgueirar nas sombras é a consequência da desabituação. Desaprendi as convenções da socialização, a língua descobriu-se torpe nas conversas, o raciocínio trôpego, os gestos vagos.
Também não sabe da minha dificuldade em dar corpo aos nomes que acumulo em listas de contactos que deixaram de contactar com mãos e risos e abraços apertados à chegada e à partida. Desconhece igualmente que me estou a esquecer da melodia das vozes, por isso, digo em voz alta os nomes das minhas pessoas, para as sentir mais próximas.
Ignora o tempo que passo a a olhar as fotografias guardadas nos arquivos do meu computador, para cinzelar na memória os traços dos rostos que se esbatem na humidade espessa do tempo.
As minhas pessoas começam a não me pertencer e eu começo a não saber estar com elas. Por isso, fujo, principalmente quando se sentam à minha frente e me vasculham a alma à procura do que não sei esconder.
