04/07/2015

Olhos de lince

O meu passado está sentado à minha frente e olha-me com olhos de lince. Sabe, por aturada experiência, que a verdade se esconde mais no fundo dos meus olhos do que na superfície dos meus lábios. Digo-lhe que está tudo bem, porque está mesmo bem, se não tudo, quase lá, numa esquina do tempo que se aproxima a passos largos do concreto. Acredita. O meu passado que me olha com olhos de lince sentado à minha frente convence-se da minha verdade.

O que o meu passado de olhos felinos não sabe é que o meu fugir pela janela e o meu esgueirar nas sombras é a consequência da desabituação. Desaprendi as convenções da socialização, a língua descobriu-se torpe nas conversas, o raciocínio trôpego, os gestos vagos. 

Também não sabe da minha dificuldade em dar corpo aos nomes que acumulo em listas de contactos que deixaram de contactar com mãos e risos e abraços apertados à chegada e à partida. Desconhece igualmente que me estou a esquecer da melodia das vozes, por isso, digo em voz alta os nomes das minhas pessoas, para as sentir mais próximas.

Ignora o tempo que passo a a olhar as fotografias guardadas nos arquivos do meu computador, para cinzelar na memória os traços dos rostos que se esbatem na humidade espessa do tempo.

As minhas pessoas começam a não me pertencer e eu começo a não saber estar com elas. Por isso, fujo, principalmente quando se sentam à minha frente e me vasculham a alma à procura do que não sei esconder.



01/07/2015

A ingratidão também acontece por inabilidade

Não estou habituada a que demonstrem que se lembram de mim. Que me ocorra, não tenho em casa qualquer caneca ou prato que me diga que alguém meu conhecido esteve num determinado lugar e pensou em mim tanto que foi impelido a carregar terracota polícroma vidrada, para que não me esquecesse da sua viagem.

Claro que não estou a considerar que ninguém, nunca, se lembra de mim, seria um absurdo, ainda para mais quando sei que somos capazes de nos lembrar das pessoas mais insuspeitas, nas alturas mais insuspeitas. Apenas, que não é costume que me digam que o fizeram.

Foi, por isso, com grande espanto que me entregaram um envelope pardo, com um conteúdo lindo de morrer e uma missiva que me deixou naquele estado de assombro enternecido de que padecem as pessoas quando apanhadas de surpresa. Acho que ainda não saí dele, caso contrário já teria agradecido ao remetente do envelope pardo.

Sim, este texto é um mea culpa público. Mas é também um profundo agradecimento -- é tudo tão lindo!

Estou perdoada?, minha linda e querida pessoa remetente e que não vou dizer quem é. :))

29/06/2015

Tenho o futuro todo adiado, arrumado em malas de cartão e sacos de plástico do super-mercado.

Michael Gesinger


25/06/2015

É só por isso

por um cansaço arrasador que não me deixa espaço nem tempo para coisa nenhuma. O silêncio.

artizan3:

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19/06/2015

Hara-kiri

«Deve-se sempre praticar hara-kiri
quando nos amam por favor.»

Dinis H. G. Nunes, A Obra Pimba



Quando é que se passa a linha entre o que é melhor para todos e o que é melhor para cada um?

17/06/2015

Lista para quando atingir o sucesso # 5

A atitude face à comercialização de bens muda consoante sejamos os vendedores ou os compradores. Somos muito mais tolerantes com o que vendemos do que com o que compramos.

15/06/2015

Resolução de meio do ano

Não havendo nada de minimamente relevante e/ou interessante para dizer, talvez vá apagar mensagens do início do blogue. Bem vistas as coisas, a Carla que começou a escrever este blogue já está a milhas de distância da Carla que começou a escrever este texto.

11/06/2015

Como areia fina a escorrer pelos dedos

Costumam dizer-me que sou esquiva, escorregadia. Que sentem que eu, quase sem pré-aviso, me sumo por entre as conversas, como areia fina a escorrer pelos dedos ou água a precipitar-se pelo ralo.

Houve até um tempo em que a minha polissemia militante foi descoberta e usada contra mim -- a impossibilidade continuada de poder dizer com toda a clareza ao que se vem desenvolve um complexo jogo de curvas e contra-curvas na sinuosidade das palavras difícil de abandonar, como um vício consolador.

Eu sei que sou esquiva. E escorregadia. Propositadamente fugidia, principalmente quando há dedos que ameaçam tocar onde dói, nos ossos fracturados, na carne arroxeada, nas linhas das cicatrizes mal amanhadas.

Quanto mais  tocam, mais fujo. Não por defeito, mais por prática, mais por protecção -- uma dor esquecida deixa de doer, não é?

10/06/2015

Quando a Pandora abre a caixa

Meio Fado - Caixa de Pandora

08/06/2015

Têm olhos mas não vêem, inteligência mas não a usam

O excesso de meios de comunicação, o wi-fi por todo o lado, as SMS grátis, a Internet nos telefones e tablets, o omnipresente e-mail, tudo isto está a embrutecer as pessoas. 

Como é possível que se tenha de perder meia-hora na troca de mensagens básicas e desnecessárias, quando uma bem escrita e bem lida chegava para o efeito?

Não aceito a desculpa de ter muito trabalho ou muito em que pensar, é preguiça pura! Ou então loucura generalizada -- e a esta não faço qualquer elogio.