19/05/2015

Que farei com este livro?

«Era demasiado curto para ser um romance, demasiado desconexo para ser um conto, demasiado realista para ser um poema.»

Yann Martel, Beatriz e Virgílio. Editorial Presença

Um fascista do caraças

Ou como ou cinema português não é nada chato.



18/05/2015

Lista para quando atingir o sucesso # 3

A popularidade é boa, não necessariamente eficaz, se no fim não ajudar a pagar as contas.

17/05/2015

«... muitas vezes, a ostentação do presente alimenta[-se] dos esquecimentos do passado.»

Fernando Trías de Bes, O Homem que Trocou a Casa por Uma Tulipa

16/05/2015

Coincidências


Adormeci no fundo da gaveta um poema escrito sem vontade, depois li isto. Há coincidências assim. (entretanto, o poema saiu da gaveta)

Se não tens vontade de escrever um poema, escreve-o.
A poesia é a procura que o coração não quer fazer.
Fácil é desviar os olhos das flores, impedir os perfumes de se revelarem,
fechar o sol com a persiana.
Escreve, escreve como quem canta aquela canção da qual só sabes metade da letra.
Escrever um poema é inventar a letra até ao fim.


roubado ao Nuno Costa Santos, o marginal ameno

14/05/2015

Queimem essas bruxas!

Basta a insinuação, a suspeita da prática de artes mágicas, para que a turba cega de raiva e sedenta de justiça se lance em matilha sobre a prevaricadora. Acontece, não poucas vezes, que a vítima de tais ímpetos mora na casa ao lado, na melhor das hipóteses, ou na cidade vizinha. Para a populaça, pouco importa, o que é mesmo preciso é que haja sangue e alguém dê as costas ao pau que desce sobre elas sem piedade.

Ridícula esta turba justiceira, que esquece valores tão essenciais como a amizade e o benefício da dúvida. Há mais Marias na terra, estúpidos! Vão para casa e deixem-se de tristes figuras.

Depois duvido

12.12.99
Foz do Douro


Antes de conseguir adormecer -- as luzes fechadas, os olhos fechados, o corpo fechado -- ponho-me a brincar com palavras ou as palavras põem-se a brincar comigo. Construo frases que vou colando umas às outras com pontos e com vírgulas. Na manhã seguinte não me lembro de nada. Era porque não era importante, penso. Depois duvido.



in Saudades de Nova Iorque, Pedro Paixão, 2000, Livros Cotovia, pág. 25


13/05/2015

O engano do seu coração é o que eles vos profetizam


Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra.
Não te encurvarás a elas nem as servirás.


Êxodo 20, 4-5




título: Jeremias 14, 14

Falhas no entendimento

São pequenos reizinhos, impantes de poder, pondo e dispondo à sua vontade. Confundem respeito com submissão e falham em entender que a autoridade de que se gabam cabe ao posto que ocupam, não à pessoa que são.

12/05/2015

No fim de tudo

Quando uma mulher se veste, não se veste só para si, ou para os outros, nem para o homem a quem espera, mais ou menos secretamente, provocar. Todos os dias de manhã, enquanto combina peças, cores, formas, materiais, uma mulher veste-se para a ocasião. Ela sabe que uma escolha bem feita pode fazer toda a diferença entre um dia bom e um dia desastroso. Não acreditam?

Ontem, enquanto me vestia, tive de considerar várias variáveis: uma viagem de comboio, um percurso a pé, deambulações num centro comercial e um jantar com várias pessoas, noutra cidade. Era preciso que a escolha fosse confortável, não muito quente, elegante e prática ao mesmo tempo. Eu, como sou simples, decidi-me pelo vestido preto consideravelmente curto e saltos altos. Achei, numa linha de pensamento pouco explícita que a bainha subida ia bem com o calor que transpirava na rua, o preto ser sempre elegante e os saltos de salto porque preciso de renovar as escolhas mais frescas e eram os que estavam mais à mão.

Para não parecer que ia para um funeral, um casaco salmão, a chegar aos joelhos, muito leve, muito fluido. Maquilhagem nenhuma, só um ligeiro bronzeado que já se nota e rímel, camadas e camadas de rímel -- gosto de pestanas dramáticas, bem teatrais, que gritam «maquilhagem» por todos os cílios. E, se com um vestidinho preto eu nunca me comprometo, com dois muito menos.

O dia foi pródigo em ocasiões que seria uma chatice enumerar. Mas a última, caríssimos, essa foi de me levar à histeria, não fosse a minha escolha avisada de indumentária.

Depois de sobreviver a uma espera de mais de meia hora por um comboio, num apeadeiro perdido nos campos do Baixo Mondego, a ouvir bocas de uns trabalhadores da EDP e a encarnar as bochechas; depois de ter conseguido manter os saltos presos aos sapatos durante a caminhada de vinte minutos pelos passeios mal calcetados da Figueira -- odeio a calçada portuguesa! --; depois de ter finalmente desbloqueado um dos telemóveis reminiscentes e de ter conduzido para Coimbra, com um trânsito infernal, uma operação STOP, muito calor e uns sapatos a darem-me cabo dos pés; depois de tudo isto, quando já me dirigia serenamente para o jantar e a escassos metros de estacionar; depois disto, caríssimos, a desfazer a última curva depois dos semáforos, quando foi preciso meter a primeira, o pedal da embraiagem fica em baixo, o carro começa aos solavancos e eu só tive tempo de o enfiar para o único estacionamento livre de uma rua apinhada de carros e em obras, antes de ele estacar de vez.

-- O teu pai vai matar-nos!

Disse a minha mãe, para ajudar à festa. E o carro quase, quase, bem estacionado, mas assim ainda com a traseira de fora, e tudo a apitar, porque eu, que sou simples e tinha um vestido que mal me tapava as pernas, não tinha dois dedos de testa para estacionar mais à frente!

Respirei três vezes, pedi ajuda a pessoas amigas que já estavam no jantar e liguei para a assistência em viagem.

Meia hora depois apareceu o taxista que nos haveria de trazer de volta para casa -- como ele conduzia mal!, e o reboque.

Foi então que a  minha escolha se revelou acertadíssima. Do reboque saiu um rapaz todo composto, cabelo espetado, muito moreno, aperto de mão forte, que carregou sozinho a minha Peugeot 306, deu um ligeiro ar de riso, certamente a pensar «mulheres!», e ainda me deixou o número do telemóvel -- foi só porque precisava de saber onde estava, ainda assim...

No fim disto tudo, pensei para comigo, pelo menos tinha um vestido curto e saltos altos.

11/05/2015

Correspondência íntima XX

E onde está a memória do coração? Para mim, durante muito tempo, a separação, mesmo quando era eu a provocá-la, era como uma espécie de morte.


A memória do coração transita para a memória por si só. Claro que guardo um carinho enorme, talvez uma espécie de amor, pelos homens que amei e perdi, mas é só. Essa dor, como se a separação fosse uma espécie de morte, já desapareceu. Ou atenuou até à imperceptibilidade.