09/04/2015

A nobreza da desistência, ou como eu não percebo nada disto

Adriana Lima
 
Desisti.
Eu sei que não posso desistir de nada, tenho de ser resistente, resiliente como as baratas, com a capacidade de sacrifício de uma parturiente. É assim que se vêem os fortes, que se escolhem os capazes, que se separam os meninos dos homens -- ou as meninas, das mulheres --, sofrendo e resistindo. Eu sei.

Quanto maior a adversidade, maior a satisfação de a ultrapassar. Oh alegria tremenda em derrotar o Adamastor. Oh gáudio dos vencedores que superam os vencidos. Oh vida a minha, que estou à beira de um ataque de nervos!

Desistir, nunca! Resistir, sempre!

Sei, mas desisti. Desisti de tentar entender a porcaria do Access e de fingir que os números e as contas são o meu caminho intuitivo. Se não for o Excel a salvar-me a vida, é bom que fique rica depressa, para pagar a quem me faça os cálculos.

08/04/2015

A chuva chegou

A chuva chegou cá acima. Anunciou-se com pingos grossos e espaçados, fez fugir os gatos do sono aquecido pelo chão, arrancou a roupa do estendal à força de mãos apressadas. A chuva chegou cá abaixo. De repente contínua, insistente, fria, desabando do céu, como se fosse Inverno. A chuva chegou e trouxe com ela o sono pesado do abandono, um desejo de aconchego, os sapatos fechados.


Uma questão de paixões

Enquanto reviro as caixas com as canetas e os clips, na procura, prevejo eu, frustrada de uma mola para prender um maço de papéis, encontro no fundo de uma um pequeno papel rasgado de um canto de um caderno, dobrado em três, com uma letra miudinha escrita a lápis. Sei, mesmo antes de ler o papel, do que se trata, quem o escreveu e quando. Sorrio -- são estas pequenas coisas que quase me fazem lamentar ter desistido da minha primeira paixão.

Depois, numa coincidência digna de um filme, cai mais uma encomenda na caixa do correio e eu lembro-me por que me permiti seguir outras paixões.

Do lado de fora do papel, lê-se: «Vai passando, mas não leias.»; do lado de dentro, «olá stora!».

E ainda dizem que ler não faz bem à saúde




Depois de contemplar leituras tão atentas, estou apta a comprovar que o meu ritmo cardíaco atinge velocidades boltianas e que os meus pulmões expelem ar qual Airbus A 380.






O apelo de um homem a ler é irresistível. Claro que o charme passa pela sábia escolha do título, um Armani que lê Paulo Coelho arrisca-se a ser imediatamente descartado.





05/04/2015

No primeiro dia da semana

Cross_Roads_by_christians


«Ele não está aqui, porque já ressuscitou»

Mateus 28, 6





04/04/2015

Em conformidade com a época

Posso afirmar com toda a certeza que sofro um tipo de morte que não é bem morte, só cansaço de parecer que não se está vivo. Espero ressurgir entre amanhã e o Domingo. Talvez lá para segunda...




p.s.: é fácil entender o grau de cansaço, olhando para o espaço temporal mencionado: «entre amanhã e o Domingo», que é exactamente o mesmo dia...

03/04/2015

A hora nona

Cross_Roads_by_christians


«E eis que o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo; e tremeu a terra, e fenderam-se as pedras; e abriram-se os sepulcros, e muitos corpos de santos que dormiam foram ressuscitados»

02/04/2015

Filmes de animação

Sempre gostei de filmes de animação. Era uma forma barata e prática de entreter os meus irmãos mais novos, sem custo algum. Ainda hoje descansam num canto do móvel da televisão as VHS dos filmes que fizeram história cá em casa. Era até costume, sempre que a minha mãe me visitava em Lisboa, trazer um filme para os miúdos, e aquelas cassetes eram vistas e revistas até à insanidade, até se decorarem as falas, os gestos, as músicas -- na altura em que o Youtube ainda não cantava, rodávamos a fita para a frente e para trás até pensarmos ter escrito a letra da música, certinha e direitinha. Um dos momentos altos foi ver o Tarzan, na sala grande do Colombo, para gáudio dos miúdos e meu, há que dizê-lo com toda a frontalidade.

Claro que no início era a Disney, depois veio a Pixar, a seguir a Dreamworks. Depois a Disney papou a Pixar e quem ganha é quem gosta de bons filmes de animação que deixaram, há muito, de ser só para crianças.

Por falar em Dreamworks, são deste estúdio alguns dos filmes mais amados, tão amados que ainda hoje me lembro de falas e cantarolo as músicas -- sim, quando estou sozinha ou distraída, dá-me para as cantorias. São eles O Príncipe do Egipto; José, o Rei dos Sonhos e Spirit.

Como curiosidade, até porque este palavreado todo servia para isso, um vídeo que mostra a evolução do logótipo ao longo de vários filmes.





Só mais uma coisita, os supra-mencionados «miúdos» são actualmente dois rapagões de 28 e 25 anos, um com 1,83 m e o outro com 1,89 m...

01/04/2015

Chegadas

Hoje foi dia de chegada de encomendas. Primeiro vieram os frascos da Colher, depois chegaram os livros que encomendei no sítio da Presença, aproveitando um campanha fantástica «leve 4, pague 1». É um dia feliz.


31/03/2015

Devo ter encontrado o livro da minha vida

Dás reviravoltas ao corpo e à imaginação para afastar a tristeza. Mas quem te disse que é proibido estar triste? A verdade é que, muitas vezes, não há nada mais sensato que estar triste; todos os dias acontecem coisas, aos outros e a nós, que não tem remédio, ou melhor, que tem esse antigo e único remédio de nos sentirmos tristes.

Não deixes que te receitem alegria, como quem prescreve uma temporada de antibióticos ou colheres de água do mar em estômago vazio. Se deixares que te tratem a tua tristeza como se fosse uma perversão ou, na melhor das hipóteses, uma doença, estás perdida: além de triste, irás sentir te culpada. E tu não tens culpa de estar triste. Não é normal que sintas dor quando te cortas? Não arde a pele se te dão uma chicotada?

Pois, do mesmo modo, o mundo, a vaga sucessão dos factos que acontecem (ou dos que não acontecem) criam um fundo de melancolia. Já o dizia o poeta Leopardi: «tal como o ar enche os espaços entre os objectos, assim a melancolia enche os intervalos entre um prazer e outro».

Vive a tua tristeza, tactei-a, desfolha-a nos teus olhos, molha-a com lágrimas, envolve-a em gritos ou em silêncio, copi-a em cadernos, anota-a no teu corpo, anota-a nos poros da tua pele. Pois só se não te defenderes fugirá, por momentos, para outro lugar que não o centro da tua íntima dor.

E para saboreares a tua tristeza vou recomendar-te também um prato melancólico: couve flor em brumas. Trata-se de cozer em vapor de água essa flor branca, triste e consistente. Devagar, com aquele odor que tem o próprio hálito que a boca exala nas lamentações, ela vai-a cozendo até amaciar. E em volta em bruma, no seu vapor fumegante, põe-lhe azeite e alho e alguma pimenta, e salga-a com lágrimas que sejam tuas. Então saboreia-a devagarinho, mordendo-a do garfo, e chora mais, e chora ainda, que aquela flor acabará por ir chupando a tua melancolia sem te deixar seca, sem te deixar tranquila, sem te roubar a única coisa que é tua naquele momento, a única coisa que já ninguém te poderá tirar, a tua tristeza; mas com a sensação de teres partilhado com essa flor imarcescível, com essa flor absurda, pré-histórica, com essa flor que os noivos nunca pedem nas floristas, com essa flor de couve que ninguém põe nas jarras, com essa anomalia, com essa tristeza florescida, a tua própria tristeza de couve-flor, de planta triste e melancólica.



Héctor Abad Faciolince in Receitas de Amor para Mulheres Tristes, Ed. Presença


texto encontrado no blogue Há Vida em Marta

30/03/2015

Quando morre um poeta

"A morte de alguém nunca nos compensa da falta que nos fará, ainda que a obra deixada seja bastante e nos pareça completa. É uma merda. A morte de alguém é uma merda. Quando nos agarramos aos poemas é porque não nos podemos agarrar a mais nada."

valter hugo mãe, "autobriografia imaginária", in JL, 8-21 de fev. 12