Não é novidade para ninguém,
homem ou principalmente mulher, que há dias em que nos sentimos feios. Se não feios, pelo menos diminuídos. Ou é mais um cabelo branco a juntar-se à revolução dos cabelos por um mundo mais sénior, ou são os papos nos olhos, ou uma borbulha no meio da testa precisamente no dia em que se vai almoçar com alguém importante, ou as calças não apertam tão bem, ou parece que nenhuma peça de roupa nos assenta em condições, o cabelo está colado à cabeça, a unha falhou, as meias romperam-se, o telefone é do tempo dos avós, o sapato descolou-se ou perdeu uma capa, o carro está na reserva e não há tempo de passar pelas bombas, um sem número de situações que podem contribuir para que o dia comece connosco a sentirmo-nos miseráveis.
Entretanto, os idiotas estampados nos cartazes da publicidade olham-nos do alto do seu mundo fresco e fofo, com sorrisos perfeitos, cabelos alinhados e sem vestígio de brancos - a menos que seja o Clooney e aí até os brancos dele são de invejar -, roupas giras que lhes assentam qual luva, com sapatos a brilhar e um humor de raiar a imbecialidade.
É todo um mundo de perfeição que, embora lá no fundinho de nós saibamos que não existe, tendemos a invejar, pelo menos, a desejar na proporção em que nos sentimos uma valente... treta.
A nosso favor temos a capacidade de relativizar as coisas, num certo ponto, e de aceitar a nossa condição humana, remetendo a idealização da publicidade para o quarto escuro da nossa cabeça. O assustador no meio disto tudo é saber que há cada vez mais gente impressionada com as habilidades da manipulação da imagem e a deixar-se convencer por todo um sem-fim de patranhas ilusórias.
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| Não sei de que campanha será este trio, mas posso dizer-vos que esta que vos escreve está ali retratadinha e não é no mais à direita. É uma chatice muito grande, mas a minha médica diz que eu tenho ossos largos e sou linda por dentro e por fora (suspiro) e como ela é que é a doutora, ela é que sabe. |
Vem isto tudo no seguimento (estive quase a escrever
a propósito de, mas resisti) de uma ligação partilhada no Facebook sobre
quatro mulheres que foram fotografadas e polidas pela lixa fina do Photoshop e a sua reacção ao perceberem que estavam como as deusas das revistas de moda.
Neste artigo, foi feita uma
referência a uma música de uma cantora que desconhecia, Boogie, sobre a sua resistência a ser considerada um produto manipulável ao gosto de «quem manda». O interessante é que o vídeo acompanha todas as transformações digitais que a sua imagem sofre, enquanto canta
versos como
Je ne suis pas leur produit.