07/01/2014

Ainda sobre a chuva

Here Comes The Rain Again - na voz de Macy Gray

Here comes the rain again
Raining in my head like a tragedy
Tearing me apart like a new emotion
Oooooh
I want to breathe in the open wind
I want to kiss like lovers do
I want to dive into your ocean
Is it raining with you

06/01/2014

Um barco abandonado

Os dias de chuva entristecem-me. A ausência do sol escurece-me na proporção do crepúsculo, a humidade do tempo desconsola-me. É difícil usar do engenho em dias assim, porque o constante cair da água, em cortinas de gotas ou fortes bátegas, desfaz os cenários frouxos do meu teatro mínimo. É um desconsolo à vista as manchas esborratadas do que pintei no papel de cenário, a realidade a galope conquistando as minhas vagas esperanças.

O mar da Figueira rugiu o dia todo, atirou-se onda após onda contra os limites de pedra que alguém plantou ao longo da marginal. O mar da Figueira parecia querer deixar de ser mar, para ser gente, qual Ariel em fúria, caminhar na areia, dormir nos hotéis, descansar nas esplanadas. Os seus dedos violentos arrancaram pedaços de muro, na agonia de não poderem deixar de ser o que são - dedos de mar, braços de água, corpo de espuma, cabelos de algas, boca insaciável de peixe e de homens.

No meu monólogo triste, sou mar em fúria, sereia desfeita em espuma, um barco abandonado.





Barco Abandonado - Dulce Pontes e Ennio Morricone


Barco abandonado
Na voz do tempo, na margem do rio
Nesta lonjura
Na voz dos temporais
Anoitece um canto sombrio
Nas pedras deste cais

Há um adeus no meu olhar
Este meu barco prisioneiro
Há-de ser viageiro
No meio do mar

Barco abandonado
Na noite escura, na ronda do vento
Neste silêncio
Na voz dos temporais
Um lamento que a dor esqueceu
Nas sombras deste cais

Há um adeus dito a sorrir
Do céu, meu amor,
Ao céu que é meu e teu,
Um dia hei-de subir
Se te encontrar

05/01/2014

A inefável mágoa da contagem crescente

Nem um poema, nem um verso, nem um canto,
Tudo raso de ausência, tudo liso de espanto
Amiga, noiva, mãe, irmã, amante,
Meu amigo está longe
E a distância é tão grande.

Gisela João - Meu amigo está longe


Voltámos aqui. Mais um ano, mais trezentos e sessenta e cinco dias de absurda estupefacção. Este ano, não consigo escrever nada, voltei ao estádio primeiro de quem se usa do que os outros escreveram, para poder dizer com sinceridade aquilo que sente. Não sei já como juntar as palavras soltas do dicionário num texto coeso, no mínimo, coerente, se tudo correr pelo melhor, juntando tudo, não querendo dizer nada; por isso, apropriei-me do que não era meu - como antes, antes de tudo, antes do nada. Talvez gostes da Gisela, não sei se estará ao nível de um fadista Meireles, mas é do norte e tem aquele ar selvagem de quem ainda não foi domado pelas regras da etiqueta - isto há-de valer de alguma coisa.

Há porém uma série de confissões que preciso de te fazer, que me pesam no lado do silêncio que guardo sobre ti, que preciso de arrumar, para me arrumar - ou desarrumar de vez, não sei, as certezas habitam areias movediças :

1) Tenho-me obrigado a esquecer, a bem da minha paz de espírito. Depois sinto-me culpada e lembro-me: lembro tudo, de chofre, de tirar o fôlego, a doer mesmo. Só quando sinto que o meu coração ainda bate com força, fico em paz - ainda não te esqueci.

2) Até agora não consegui falar de ti sem chorar, por isso, não falo de ti. Às vezes menciono-te vagamente como «o que aconteceu», que é uma forma cobarde de me proteger de mais explicações e de salvar algumas lágrimas. Creio firmemente que nunca o conseguirei fazer, que haverá sempre muita emoção no mencionar do teu nome e na evocação de quem foste.

3) Estou a ficar doida. Só assim explico que continue a escrever-te espécies de cartas num espaço público, onde qualquer pessoa pode ler, contrariando tudo o que sou: a minha reserva permanente sobre a minha vida e a dos outros e as minhas convicções, porque contra tudo aquilo em que acredito espero, de alguma forma, que me consigas ler e saibas, por fim, tudo o que não fui a tempo de dizer.

4) Já consegui arrumar os teus livros. 

5) Devias ter pensado mais em nós, quando decidiste morrer para sempre.

02/01/2014

Desejos para o ano vindouro

Os meus desejos são secretos.
Não que não tos possa dizer, não que o sejam
só agora que o ano velho se despede cansado e
o novo ano fervilha de imprudência infantil.

São secretos os meus desejos.
Não que não os saibas já, não que não os
suspeites no baloiçar dos meus passos,
no riso dos meus olhos, no vacilar dos meus versos.

Secretos os meus desejos são.
Escrevo-os em pedaços de papel, rasgados
de cadernos alheios e dobro-os em mil dobras,
pequeninas como os meus desejos nunca serão.

Guardo-os nos bolsos, com as chaves de casa
e o mapa da cidade. Lavro-os nas paredes
do sótão onde me escondo da existência pálida
e teço teias à volta do coração.

Desejos meus secretos são.


Publicado originalmente em Cais das Letras

A intensidade da chuva

A intensidade da chuva raia já o absurdo. Não haverá sol suficiente no novo ano, para secar todas as colchas e os lençóis de linho arrumados nos baús. As fotografias, como as recordações, ficaram irremediavelmente manchadas. As cores escorreram de tudo onde a água cai - a vida é uma tela em branco, onde até os traços do carvão começam a perecer.

31/12/2013

30/12/2013

Caro 2013

no início das tuas horas, pedi-te que me deixasses saudades. Não cumpriste integralmente o pedido, mas não me posso queixar. Houve dias tristes, outros muito tristes, dias em que pensei arrumar as botas de vez e dias que compensaram os outros todos. Deste-me horas que valeram semanas inteiras e deste-me céus novos, outro chão para andar, uma nova forma de entender o mundo. Chegaremos ao fim do dia 31 em paz, despedir-nos-emos com cortesia e alguma ternura.

Quando te cruzares com 2014, dá-lhe a lista que te dei, com tudo aquilo que desejo, e avisa-o para ser gentil comigo.

I wonder...








I wonder why it is
I wont let my guard down
For anyone but you
We do it all the time
Blowing out my mind
Like a star - Corinne Bailey Rae

28/12/2013

Quando eu penso que já esqueci tudo

Outra vez te sentas à minha frente, olhando duvidoso a pizza de atum e frango que tu mesmo tinhas pedido. Não era a melhor das combinações, embora à partida tivesse parecido que sim, mas até estava boa. Submergias-te no tinto do copo e perdias-te no mar à tua esquerda, sem que eu tão-pouco sonhasse que te preparavas para partir, para nunca mais voltar.

27/12/2013

A minha vida dava uma banda sonora #17

Porque eu acabo sempre por ir, deixando para trás as coisas que foram, as pessoas que estiveram. Porque eu acabo sempre por largar as malas e tudo o que sobra são bolsos cheios de recortes de memórias, cacos de existências, peças soltas de um puzzle maior.


Terminei indo - A Banda Mais Bonita da Cidade


Eu já sei caminhar em tantas nuvens
E posso visitar de vez em quando o chão
Do alto do parque, por cima das árvores eu vejo você

Antes de bater o vento eu já pensava em voar
Antes do sol clarear eu desapareci
Por cima dos prédios, estrelas vermelhas não brilham no céu

Eu sou das ruas de qualquer lugar
Existo sempre que você pensar em nós
Não tenho tempo pra guardar recordações

Mas o tanto que eu levar de você
Eu deixo um pouco pra me misturar
E não descanso pra você dormir

26/12/2013

É uma música de Natal tão boa como outra qualquer




Conselho de amiga: Evitem a coreografia depois do almoço.