11/12/2013

Natureza humana

Essa era a puta da verdade:
estava só e fodido
e costumava pensar que lhe restava pouco tempo.

Devoção de Roberto Bolaño, trad. Francisco José Viegas

10/12/2013

Como me sinto hoje?

Liliana Lourenço

em canais de vontades
em lagos de rememorações.

08/12/2013

06/12/2013

Em silêncio respeitoso

Porque o muito falar é tolice.



Nelson Mandela 1918 - 2013

30/11/2013

Cartas para o meu futuro - 2

Caro Futuro,

Não sei quando lerás estas cartas, fiz um cálculo mental de trinta anos, o suficiente para que sejas já uma reformada enxuta, ainda com a cabeça cheia de projectos megalómanos e uma considerável dose de inocência. É, talvez, um cálculo a pecar por defeito – se te quiser apanhar no estado da reforma, é melhor que aponte para daqui a quarenta anos. Se não for mais.

Independentemente da altura em que leias isto, é importante que conserves uma das poucas certezas que me posso gabar de ter alcançado: do passado não guardo mágoas.

Às vezes, encontro bocadinhos do passado por aí, fiapinhos digitais que vão ficando presos nos espinheiros virtuais em que circulamos. É inevitável, por onde passamos deixamos um rasto e, se alguém tiver paciência que chegue, todos os nossos passos podem ser refeitos.

Confesso que já os procurei, fui eu mesma à procura das pegadas marcadas no chão que certos passos costumavam pisar; na maioria das vezes, acho-os, como fósseis solidificados, pequenas reminiscências à espera de ser encontradas. Ultimamente, parece que não faço mais do que tropeçar neles.

Sinto, então, uma ternura muito grande, uma saudade incompleta, uma exclamação: «olha, o meu passado!». Fico assim algum tempo, perdida nas coisas boas, que as há sempre, sem esquecer as menos boas, que também abundaram.

Não que queira voltar àquele tempo, àquelas pessoas – não quero – só não posso ignorar que hoje sou o somatório de tudo o que vivi, que foram aqueles tempos e aquelas pessoas que me moldaram neste mulher que escreve.

Peço-te, por isso, que sejas sempre delicada com a lembrança do que deixaste para trás, que te lembres de todos e os guardes com ternura, e te lembres de mim como alguém a quem falta percorrer trinta ou quarenta anos para ser como tu.


Do passado não guardo mágoa. Nunca te esqueças. 

Sábado preguiçoso

Nem por isso.
Onde é que anda a minha lista de tarefas?


29/11/2013

Rituais pré-escrita

Se eu perguntasse quais os vossos rituais antes de começarem uma tarefa, éramos capazes de ter aqui assunto para umas conversas engraçadas. Mesmo que não pensemos muito nisso, acredito que todos temos umas quantas manias ou rituais pré-tarefas. Os escritores são conhecidos por terem muitas e estranhas, as estrelas da música não lhes ficam atrás.

Eu, que não sou nem escritora, nem cantora, assumo que tenho os meus tiques, sempre que abro uma folha no Word, para começar a escrever: ter o espaço arrumado, principalmente a mesa de trabalho; estar eu mesma arrumada; uma manta e uma garrafa de água; os óculos e música. Não uma música qualquer, mas duas músicas em particular. 

Qualquer que seja o tom do texto ou a finalidade dele, tenho comprovado vez após vez que flui com maior naturalidade se estiver a ouvir «Dream is Destiny», mais do qualquer outra, e «I Don't Think About You Anymore But, I Don't Think About You Anyless», de preferência com os auscultadores. Acompanha-as uma carga emocional acima da média e estão ligadas a alguns dos textos mais difíceis de escrever, mas são sempre a escolha primeira.

Manias!


Dream is Destiny  - No Clear Mind


I Don't Think About You Anymore But, I Don't Think About You Anyless - Hungry Ghosts

28/11/2013

The Pirate's Gospel

Aproximam-se dias difíceis, parece-me. Está na altura da tripulação se juntar e cantar (alguém que procure o Álvaro, que desta ele não se safa) -- pode ser que assim evitemos males maiores.

Alela Diane - The Pirate's Gospel

We're gonna sing
The pirate's gospel
We're gonna chant
The pirate's gospel
You'll find us clap
The pirate's gospel

Yo ho yo ho
Yo ho ho
Yo ho yo ho ho
Yo ho yo ho
Sing the pirate's gospel
Sing the pirate's gospel 

27/11/2013

Dias assim

Está frio. Na rua sopra uma aragem cortante que me faz cerrar os olhos e me maltrata as bochechas. São sensíveis as minhas bochechas, pouco menos sensíveis que o meu coração, muito mais sensíveis que as mãos que se escondem nos bolsos, à procura de uma brasa quente. Está frio. Evidência redundante, olhando o calendário que me diz que Novembro exala os últimos suspiros, em pequenas baforadas de calor que evaporam ao ar. As frentes frias varrem as extensões que ousam atravessar-se no seu caminho, querem deixá-las para trás das costas, como seres mínimos, congelados na rotina de cigarras pouco precavidas. O chão está escorregadio, é preciso cuidado para não escorregar – o chão oferece pouco conforto em dias assim, ainda que seja o único capaz de verdadeiramente nos amparar nas quedas. Os casacos não travam a extinção do calor, o afastamento do ardor do corpo; enrolo fios de lã entrançados, no pescoço, subo a gola e resisto.


Está frio. Ainda assim, há um pensamento insistente que me aquece, como o crepitar recorrente da lareira, como uma manta quente, o chá a ferver. Esse pensamento leva-me a dias menos frios, a lugares menos expostos, a horas mais tardias, a um consolo da alma. Viajo à boleia da memória e sorrio, enquanto caminho – é um vício que tenho e espanta quem passa por mim, vejo-lhes os olhares agudos e sorrio ainda mais. É um desejo de multiplicação desse momento que me repassa os ossos: a aproximação tímida, um certo medo, uma ousadia, a prisão dos braços, o descanso das bocas.