Caro Futuro,
Não sei quando lerás estas cartas, fiz um cálculo mental de
trinta anos, o suficiente para que sejas já uma reformada enxuta, ainda com a
cabeça cheia de projectos megalómanos e uma considerável dose de inocência. É,
talvez, um cálculo a pecar por defeito – se te quiser apanhar no estado da
reforma, é melhor que aponte para daqui a quarenta anos. Se não for mais.
Independentemente da altura em que leias isto, é importante
que conserves uma das poucas certezas que me posso gabar de ter alcançado: do
passado não guardo mágoas.
Às vezes, encontro bocadinhos do passado por aí, fiapinhos
digitais que vão ficando presos nos espinheiros virtuais em que circulamos. É inevitável,
por onde passamos deixamos um rasto e, se alguém tiver paciência que chegue,
todos os nossos passos podem ser refeitos.
Confesso que já os procurei, fui eu mesma à procura das
pegadas marcadas no chão que certos passos costumavam pisar; na maioria das
vezes, acho-os, como fósseis solidificados, pequenas reminiscências à espera de
ser encontradas. Ultimamente, parece que não faço mais do que tropeçar neles.
Sinto, então, uma ternura muito grande, uma saudade incompleta,
uma exclamação: «olha, o meu passado!». Fico assim algum tempo, perdida nas
coisas boas, que as há sempre, sem esquecer as menos boas, que também
abundaram.
Não que queira voltar àquele tempo, àquelas pessoas – não quero
– só não posso ignorar que hoje sou o somatório de tudo o que vivi, que foram aqueles tempos e aquelas pessoas que me moldaram neste mulher que escreve.
Peço-te, por isso, que sejas sempre delicada com a lembrança
do que deixaste para trás, que te lembres de todos e os guardes com ternura, e
te lembres de mim como alguém a quem falta percorrer trinta ou quarenta anos
para ser como tu.
Do passado não guardo mágoa. Nunca te esqueças.

