30/11/2013

Cartas para o meu futuro - 2

Caro Futuro,

Não sei quando lerás estas cartas, fiz um cálculo mental de trinta anos, o suficiente para que sejas já uma reformada enxuta, ainda com a cabeça cheia de projectos megalómanos e uma considerável dose de inocência. É, talvez, um cálculo a pecar por defeito – se te quiser apanhar no estado da reforma, é melhor que aponte para daqui a quarenta anos. Se não for mais.

Independentemente da altura em que leias isto, é importante que conserves uma das poucas certezas que me posso gabar de ter alcançado: do passado não guardo mágoas.

Às vezes, encontro bocadinhos do passado por aí, fiapinhos digitais que vão ficando presos nos espinheiros virtuais em que circulamos. É inevitável, por onde passamos deixamos um rasto e, se alguém tiver paciência que chegue, todos os nossos passos podem ser refeitos.

Confesso que já os procurei, fui eu mesma à procura das pegadas marcadas no chão que certos passos costumavam pisar; na maioria das vezes, acho-os, como fósseis solidificados, pequenas reminiscências à espera de ser encontradas. Ultimamente, parece que não faço mais do que tropeçar neles.

Sinto, então, uma ternura muito grande, uma saudade incompleta, uma exclamação: «olha, o meu passado!». Fico assim algum tempo, perdida nas coisas boas, que as há sempre, sem esquecer as menos boas, que também abundaram.

Não que queira voltar àquele tempo, àquelas pessoas – não quero – só não posso ignorar que hoje sou o somatório de tudo o que vivi, que foram aqueles tempos e aquelas pessoas que me moldaram neste mulher que escreve.

Peço-te, por isso, que sejas sempre delicada com a lembrança do que deixaste para trás, que te lembres de todos e os guardes com ternura, e te lembres de mim como alguém a quem falta percorrer trinta ou quarenta anos para ser como tu.


Do passado não guardo mágoa. Nunca te esqueças. 

Sábado preguiçoso

Nem por isso.
Onde é que anda a minha lista de tarefas?


29/11/2013

Rituais pré-escrita

Se eu perguntasse quais os vossos rituais antes de começarem uma tarefa, éramos capazes de ter aqui assunto para umas conversas engraçadas. Mesmo que não pensemos muito nisso, acredito que todos temos umas quantas manias ou rituais pré-tarefas. Os escritores são conhecidos por terem muitas e estranhas, as estrelas da música não lhes ficam atrás.

Eu, que não sou nem escritora, nem cantora, assumo que tenho os meus tiques, sempre que abro uma folha no Word, para começar a escrever: ter o espaço arrumado, principalmente a mesa de trabalho; estar eu mesma arrumada; uma manta e uma garrafa de água; os óculos e música. Não uma música qualquer, mas duas músicas em particular. 

Qualquer que seja o tom do texto ou a finalidade dele, tenho comprovado vez após vez que flui com maior naturalidade se estiver a ouvir «Dream is Destiny», mais do qualquer outra, e «I Don't Think About You Anymore But, I Don't Think About You Anyless», de preferência com os auscultadores. Acompanha-as uma carga emocional acima da média e estão ligadas a alguns dos textos mais difíceis de escrever, mas são sempre a escolha primeira.

Manias!


Dream is Destiny  - No Clear Mind


I Don't Think About You Anymore But, I Don't Think About You Anyless - Hungry Ghosts

28/11/2013

The Pirate's Gospel

Aproximam-se dias difíceis, parece-me. Está na altura da tripulação se juntar e cantar (alguém que procure o Álvaro, que desta ele não se safa) -- pode ser que assim evitemos males maiores.

Alela Diane - The Pirate's Gospel

We're gonna sing
The pirate's gospel
We're gonna chant
The pirate's gospel
You'll find us clap
The pirate's gospel

Yo ho yo ho
Yo ho ho
Yo ho yo ho ho
Yo ho yo ho
Sing the pirate's gospel
Sing the pirate's gospel 

27/11/2013

Dias assim

Está frio. Na rua sopra uma aragem cortante que me faz cerrar os olhos e me maltrata as bochechas. São sensíveis as minhas bochechas, pouco menos sensíveis que o meu coração, muito mais sensíveis que as mãos que se escondem nos bolsos, à procura de uma brasa quente. Está frio. Evidência redundante, olhando o calendário que me diz que Novembro exala os últimos suspiros, em pequenas baforadas de calor que evaporam ao ar. As frentes frias varrem as extensões que ousam atravessar-se no seu caminho, querem deixá-las para trás das costas, como seres mínimos, congelados na rotina de cigarras pouco precavidas. O chão está escorregadio, é preciso cuidado para não escorregar – o chão oferece pouco conforto em dias assim, ainda que seja o único capaz de verdadeiramente nos amparar nas quedas. Os casacos não travam a extinção do calor, o afastamento do ardor do corpo; enrolo fios de lã entrançados, no pescoço, subo a gola e resisto.


Está frio. Ainda assim, há um pensamento insistente que me aquece, como o crepitar recorrente da lareira, como uma manta quente, o chá a ferver. Esse pensamento leva-me a dias menos frios, a lugares menos expostos, a horas mais tardias, a um consolo da alma. Viajo à boleia da memória e sorrio, enquanto caminho – é um vício que tenho e espanta quem passa por mim, vejo-lhes os olhares agudos e sorrio ainda mais. É um desejo de multiplicação desse momento que me repassa os ossos: a aproximação tímida, um certo medo, uma ousadia, a prisão dos braços, o descanso das bocas. 

26/11/2013

Correspondência íntima - XIV

Sempre foste ótima nessa arte de dissimular o que te vai na canalização emocional. Junte-se a isso a minha eterna dislexia no que diz respeito à leitura de emoções alheias e percebe-se facilmente porque é que não acerto uma. ;)


Qualquer epístola que contenha a expressão «canalização emocional» tem, por força, de ser dada à estampa.

O calçado português

ganha prémios, é do mais caro do mundo e escolhido pela Rihanna, mas nem assim consegue fazer meia dúzia de pares acima do 41. Bem que eu gostava de saber onde é que desencantam os sapatos de salto que vejo os homens calçar em produções de moda, cinema ou teatro. E não me venham dizer que os homens calçam números pequenos - aquilo tem de vir de algum lado. 

25/11/2013

Quem isto ouvir e contar, em pedra se há-de tornar

Quem isto ouvir e contar, em pedra se há-de tornar.


http://www.eumof.unic.ac.cy

24/11/2013

22/11/2013

Cartas para o meu futuro - 1

Caro Futuro,

li algures que conversar consigo mesmo é um sinal de loucura em fase inicial. Também tenho a impressão de que é vício dos professores falarem sozinhos, em monólogos, que dificilmente chegam a ser diálogos, com a consciência. Agora que penso nisto, tenho a vaga ideia de alguém mo ter dito. Se li, se mo disseram, não tem relevância alguma, a questão principal é que falamos em voz alta connosco mesmos e isso pode não ser lá muito saudável – por via das dúvidas, decidi escrever-me.

Bons parceiros de diálogo são tão difíceis de encontrar como uma casa com acabamentos de topo, vistas fantásticas, no melhor sítio da cidade e a um preço para amigos – a menos que se tenha um amigo empreiteiro, e mesmo assim é de desconfiar, «não há almoços grátis» – e eu, confesso, tenho fases de grande cansaço em que não me apetece ter de explicar mais uma vez por que razão tenho a mania das organizações, medos que só a custo confesso e os motivos por que fui deixando de existir em tantos contextos. Pode ser só preguiça minha.

Seja lá por que for, conto por metade dos dedos de uma mão o número de pessoas com quem realmente converso… aqui num parêntesis, estou mesmo a ver à minha frente uns quantos pares de sobrolhos franzidos a pensar «se não falas, é porque não queres» e tenho de lhes dar razão…

É inquietante a consciência da galopante solidão acompanhada em que estou a mergulhar. Não de repente, antes como se de areias movediças se tratasse. São as pequenas indiferenças, as pequenas desconsiderações, os pequenos esquecimentos, os pequenos fingimentos, tudo muito subtil, muito inocente, muito na famigerada maldade de quem interpreta as coisas mal.

Li certa vez que um cônjuge não deve encarar o casamento como uma relação parental em que o outro é uma espécie de filho que tem de educar e orientar, sob pena de o cônjuge-filho vir a sofrer daquilo que todos os filhos sofrem – o desejo de fugir dos seus pais. Devo ter sido uma espécie de mãe para muita gente, é natural que ao atingirem a maioridade emocional queiram ir correr mundo, ver a vida, pintar a cana verde, fazer trinta por uma linha, tudo menos perderem tempo com a «progenitora».

Este intróito tinha um sentido… devia ser o de justificar o título – tem sempre de se justificar o título, não é?, «em que medida o título aponta para o sentido geral da obra?» –,  já que não posso chamar a isto tão só Ideias verdes em folhas rosa choque, o que é uma pena! Uma lastimável pena.


Posto isto, funcionarão estas cartas como reflexões avulso do eu que sou hoje, dirigidas ao eu que serei num dia qualquer do futuro, que espero seja longo. No fundo, são criancices pseudo-literárias, não vejo já grande margem de progressão para a minha personalidade. A menos que me torne um pouco mais calada, um pouco menos interessada, um mais ou menos descaracterizada.

21/11/2013

R.I.P, Rimas Imperfeitas

Há dias em que acordamos e tomamos decisões que nem sabíamos querer tomar. Foi isso mesmo que aconteceu hoje, embora a ideia já andasse a rondar há muito: as Rimas Imperfeitas despediram-se da blogosfera e foram substituídas pelos Cais das Letras.
Salvo o nome e o cabeçalho, mantém-se tudo igual -- dos poemas às imagens, passando necessariamente pelos melhores leitores do mundo que me dão a enorme honra de me ler e comentar.
A ver vamos como corre a viagem.