21/11/2013

Caro dente do siso

Se vieste trazer-me o juízo, chegaste irremediavelmente atrasado.

20/11/2013

São os implícitos, senhoras, são os implícitos

http://badengagementphotos.tumblr.com

À boleia de um post do João Miguel Tavares, estou há uma boa meia-hora a ver fotos de noivado. Todas terríveis, assim é suposto. No meio de todo o kitsch e saloiice, há um tema que me tem feito pensar. 

Pode parecer muito cómica, até tragicómica, a mensagem da imagem (bela cacofonia) que vos deixo. Para mim, não é e pode dizer muito da forma como se encaram relações e principalmente casamentos. 

«Ele roubou-me o coração e eu roubei-lhe o apelido»? A sério que é esta ideia deslavada que querem passar?, que tudo se resume a uma mudança do estado civil e um acrescento aos apelidos? Será que as alminhas femininas não alcançam o cinismo da afirmação? É que o sexo forte e tradicionalmente bruto até assume uma dose de romantismo apreciável - podiam tê-las deixado roubar a pureza, as pratas da mãe, os brincos da avó, mas não, deixaram-nas roubar-lhes o coração. Já elas estão mais interessadas em roubar-lhes o estatuto social.

Talvez seja assim que as relações se processem e até explique muito coisa, como o meu inalterável estado civil.


19/11/2013

A imensurável medida das coisas

Quanto mede um palmo? Quanto mede a distância daqui para aí? Quanto mede a felicidade? E o amor? Talvez nada disto se meça, talvez só algumas coisas se meçam. Será ao peso? Em medidas pré-estabelecidas ou a granel? Como se quantificam as coisas que realmente importam? E por que há-de ser tão necessário saber valores exactos? O pai e a mãe pesaram o mesmo na balança dos afectos? Porquê a necessidade nauseante de saber de qual se gosta mais?

Qual o volume do coração? E do medo? Vale mais uma dúvida ou uma esperança? De que são feitas as certezas – e por que não podem ser feitas de nuvens e algodão? Como se pesa a saudade? E as cerejas? A balança velha da avó perdeu alguns pesos e a cor vermelha, tem agora muitas lascas e muitos quilos de cerejas pesados. Algumas maçãs. E muitas dores na alma.

Como se aproxima o norte do sul? E as duas margens do rio? Porque é que do perto é tão fácil fazer longe e o contrário custa mais? Como se cose um botão? E quais os melhores fios, para tecer uma teia durante vinte anos? E por que não montou Ulisses o cavalo, para chegar mais depressa a Ítaca? Porque é que o tempo passa depressa quando estamos bem e o amanhã nunca mais chega, quando estamos com pressa?


Por que razão as noites são tão tristes e os dias tão faltos de presença? Por que razão, as perguntas não acabam e as respostas nunca são suficientes?

Acordar com um gato

é coisa para deixar ambos bastante contentes.


18/11/2013

17/11/2013

Palhaços!

E não é sequer um elogio insulto.



Com os animais habituais
Tem outros tais, bem especiais
São lobos, cobras, lagartos
Palhaços ricos e fartos
Artistas nas faces das revistas
De pés pró ar e vice-versa
Ilusionistas bem malabaristas
Balões de ar e de conversa

15/11/2013

Eles comem tudo

Vampiros - Nicolas Jaar e Gisela João - Lux (Lisboa)

No céu cinzento
Sob o astro mudo
Batendo as asas
Pela noite calada
Vem em bandos
Com pés veludo
Chupar o sangue
Fresco da manada

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada 

A toda a parte
Chegam os vampiros
Poisam nos prédios
Poisam nas calçadas
Trazem no ventre
Despojos antigos
Mas nada os prende
Às vidas acabadas

São os mordomos
Do universo todo
Senhores à força
Mandadores sem lei
Enchem as tulhas
Bebem vinho novo
Dançam a ronda
No pinhal do rei

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

No chão do medo
Tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos
Na noite abafada
Jazem nos fossos
Vítimas dum credo
E não se esgota
O sangue da manada

Zeca Afonso

Esta noite morri muitas vezes

Segredo


Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma,
enquanto fosses tu a conduzir
o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo,
toda a espiral das horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento,
a música da chuva nas janelas
sob o frio de Fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projectou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome -- essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração.


Fernando Pinto do Amaral, em Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa, Coord. Pedro Mexia

14/11/2013

Natureza humana

As mulheres em particular são engenho de multiplicar homens, são todas feitas de bívios as mulheres, artistas de povoar mesmo sem prenhez, basta-lhes falar ou ser, no resto pensam eles: falo-lhe ou não lhe falo? Beijo-a ou não beijo? São irremediáveis e estúpidos os homens, se se aguentam na vida é mais por privilégios de género do que por competência, os homens são idiotas carregados de sementes.



As mulheres belas podem ser becos e as feias também. Ruas estreitas onde enfiar sob o risco de não sair nunca, porque as mulheres não se acabam. Todas as mulheres são autoras discretas, responsáveis por maridos, filhos, amigos e solitários.

Nuno Camarneiro, No meu peito não cabem pássaros, p. 179 e 180

13/11/2013

Belzebu anda à solta na aldeia. Outra vez.

12/11/2013

Percorrer a avenida entre o relógio e a rotunda dos pescadores exige um esforço da memória superior ao esforço do corpo, para fazer corresponder todos os espaços vazios às lojas que os ocuparam.