07/07/2013

Universo feminino - parte 7

A sociedade contemporânea exige das mulheres uma juventude inesgotável. Em rebeldia não escolhida, deitei-me, sentindo-me velha. 

Exercício contemplativo - porque «há metafísica bastante em não pensar em nada»

O espelho devolve-me um reflexo que só a muito custo reconheço: a palidez dourou-se, as bochechas estão agora avermelhadas pelo sol, as sardas alastram-se numa procriação desmedida que aumenta a cada dobrar de estação e o cabelo continua desgrenhado, rebelde, dono dos seus jeitos e reflexos de cobre - o secador ainda está de férias estivais.

06/07/2013

Dica para ser uma dona de casa exemplar

Sem desesperar.

Acabei de tropeçar nesta música

Não conhecia o poema do Ary, pelo menos não me lembro de o ter ouvido na voz da Amália, e não conhecia a Gisela João. Até hoje.


Meu amigo está longe - Gisela João


Nem um poema, nem um verso, nem um canto,
Tudo raso de ausência, tudo liso de espanto
Amiga, noiva, mãe, irmã, amante,
Meu amigo está longe
E a distância é tão grande.
Nem um som, nem um grito, nem um ai
Tudo calado, todos sem mãe nem pai
Amiga noiva mãe irmã amante,
Meu amigo esta longe
E a tristeza é tão grande.
Ai esta magoa, ai este pranto, ai esta dor
Dor do amor sozinho, o amor maior
Amiga noiva mãe irmã amante,
Meu amigo esta longe
E a saudade é tão grande.

05/07/2013

O meu cabelo gosta do hálito quente do verão

A chegada do calor marca o início das férias do secador. Até ao início dos primeiros ventos frios e dos primeiros pingos de chuva outonal, o cabelo seca ao ar quente da tarde e as ondas do mar vestem-se de castanho até à cintura.

A minha vida dava uma banda sonora #4

A permanência da pessoa amada no espesso tecido da memória pode ser entendido como um circuito fechado de fragmentos existenciais que vamos reagrupando e arrumando em realidades paralelas, até que a história esteja escrita em conformidade com a nossa certeza.



Like a song – Lenka


I can't forget you when you're gone.
You're like a song
That goes around in my head.

04/07/2013

Proibição do dia

Não esperarás dos outros mais do que eles podem dar.

03/07/2013

A minha vida dava uma banda sonora #2

A não correspondência de um amor torna a convivência entre as partes, num martírio para o não desejado. A impossibilidade factual de um relacionamento com sentimentos correspondidos não é menos martirizante. Aparentar um estado de espírito casual, como convém à situação, agindo em desvalorização constante: «que tolice a minha ter gostado de ti!», aceitar a preciosa amizade, porque o pouco é melhor do que nada, e amargar por dentro, no espaço dos silêncios.

I get a taste of blood in my mouth when you're near
A feeling that's too painful to bear
Straight to my head

02/07/2013

A minha vida dava uma banda sonora #1

É comum termos como consolo íntimo a certeza de que a nossa vida inspiraria um filme. Quer seja pela quantidade de peripécias cómicas, quer pelos desencontros, quer pelos amores sofridos, quer pelo que for - que na nossa narrativa cinematográfica pessoal somos os únicos críticos reconhecidos e nem por sombras nos daremos menos do que cinco estrelas (os que derem só uma é por mero senso de estilo e culto do alternativo). Basta ver a forma como contamos os episódios marcantes da nossa existência, basta ver como se alimentam blogues.

A minha linha narrativa seria muito chatinha (não vou fazer qualquer comparação com possíveis realizadores) e pouco interessante. Prefiro o consolo íntimo de que a minha vida inspiraria uma banda sonora - músicas combinadas a marcarem os momentos importantes, ritmos e vozes que poderiam ser as minhas, mas felizmente não são.

Esta nova secção no blogue não se pretende cronológica - nem o conseguiria ser -, trata-se apenas de arrumar formas de me contar, sem dizer demasiado, até porque há músicas recorrentes, como recorrentes são sentimentos, reflexões, aprendizagens. Se um escritor está sempre a escrever um mesmo livro, mesmo quando escreve livros diferentes, o mesmo acontece com a música que se repete na repetição dos acontecimentos.

Começo por Claire and the reasons e "Cook for you", uma música já postada, mas que me diz bastante e hoje faz todo o sentido - passei o meu sonho inteiro a tentar voltar àquela cozinha, sem o ter conseguido.



reflections of me
in the pictures of you
makes me forget
that you rest in peace

Resolver problemas é bom, rever textos também


Diz o meu irmão mais novo que um engenheiro é um resolutor de problemas. Fico-me a pensar se não errei a profissão e se não há em mim um engenheiro em potência que não teve a oportunidade de ver a luz do dia.
Gosto de resolver problemas. É um facto. Não é que almeje a perfeição – estou bem consciente das limitações da empresa – tão só gosto de aperfeiçoar coisas. Se há um móvel com ar feiote, por que não dar-lhe um novo ar? Por que não organizar as divisões até encontrar a combinação mais funcional? Por que não arrumar os armários e ter espaço para tudo, de forma ordenada?

Às vezes, esta ordenação compulsiva dos objectos estende-se às pessoas, mas mais no sentido de saber realmente o que elas significam para mim – por isso, situações indefinidas tendem a provocar sofrimento e a técnica máscula número um de resolver quezílias pelo silêncio é capaz de me enfurecer ao nível asiático de Hulk.

Deixando as sentimentalidades de lado, gosto de rever textos. Faço-o por um verdadeiro gosto de pegar num texto com falhas e deixá-lo limpo de excessos, claro, lógico e científico – claro que não estou a falar dos textos literários – de conseguir entender o raciocínio lógico de quem escreveu e dar-lhe a forma pretendida a priori.


Agora, vou viajar no tempo até aos primórdios do Real Mosteiro de Santa Maria de Seiça. Portem-se bem.

01/07/2013

A minha mãe faz hoje anos

O par maravilha decidiu que fazer anos um a seguir ao outro era bonito,  vai daí que é todos os anos esta roda viva. Ora bem, num fôlego:

  • o bolo está no forno;
  • a mousse de limão a ser terminada;
  • as prendas compradas;
  • o jantar a marinar na mente;
  • as minhas pernas a precisarem de descanso.


Para castigo, vai levar 56 velas no bolo. (ai, afinal faltava uma, são 57 e em agosto volta a haver festa, ca senhora faz duas vezes por ano)