10/06/2013

Melhor é dar que receber

A forretice nunca fez parte do meu carácter. Sou daquele tipo de pessoas que é capaz de partilhar o que tem, apesar da proverbial sentença - «quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é tolo ou não tem arte» - mesmo ficando com a pior parte, e tem inclusive uma alegria imensa em o fazer. Gosto de procurar presentes que tenham a cara do ofertado, que, independentemente do valor monetário, tenham um grande valor afectivo - e é assim que gosto de ser presenteada.

Mas não gosto que abusem da minha generosidade, que me comecem a forçar a ter de dar, que exijam de mim o que não tenho por que fazer. Nestas alturas, o generoso dá lugar ao indiferente e, por mais que instem e apelem, toda eu me desentendo.

Ai, Portugueses, Portugueses


Portugal, Portugal

Tiveste gente de muita coragem
Acreditaste na tua mensagem
Foste ganhando terreno foste perdendo a memória
Já tinhas meio mundo na mão
Quiseste impor a tua religião
Mas acabaste por perder a liberdade a caminho da glória

Ai, Portugal, Portugal
De que é que estás à espera
tens o pé numa galera outro no fundo do mar
Ai, Portugal, Portugal
Enquanto ficares à espera
ninguém te vem ajudar

Tiveste muita carta para bater
Quem joga deve aprender a perder
Que a sorte nunca vem só quando bate à nossa porta
Esbanjaste muita vida nas apostas
Agora trazes o desgosto às costas
E não se pode andar direito quando se tem a espinha torta

Fizeste cegos de quem horas tinha
quiseste pôr toda a gente na linha
trocaste a alma e coração pelas pontas da tua lança
Difamaste quem verdades dizia
confundiste amor com pornografia
e por fim perdeste o gozo de brincar com as tuas crianças

06/06/2013

É só mais um dia mau

Manel Cruz - a explicar a minha cabeça desde o início dos anos 90.










A manhã levantou-se cedo

e fez-me acordar com ela.


P.S.: Se alguém souber de quem é esta imagem, p.f., diga-me. Grazie. :)

05/06/2013

Procuro curso intensivo de Complexificação de Comportamentos

Facilito demasiado a vida às pessoas que lidam comigo, levando-as ao pensamento falacioso de que, no retorno, qualquer coisa serve.

04/06/2013

Prótese dentária

Usava uma prótese dentária. Nada de muito assustador, servia apenas para lhe ocupar o espaço vazio de dois molares - talvez um dia, com mais talentos, pudesse trocá-la por dois modernos pivots que lhe restituíssem a dignidade de uma boca sem muletas. Convivia bem com o excesso dentro da cavidade oral, pelo menos, facilitava-lhe as refeições - o que não era de desprezar.

No entanto, naquele dia de manhã, sem que nada o fizesse prever, sentiu-se cheio, usurpado, plastificado, diminuído e aleijado. Dentro da boa, a prótese crescia como inchasse com o café do pequeno-almoço, empurrava dentes, arrancava dentes, ocupava o lugar dos dentes, maxilar, garganta. Uma prótese gigantesca a ocupá-lo por inteiro, invadindo-o para além da função estética e prática da arte de mastigar.

Com esforço, lançou as mãos à boca, procurou os arames que se cravavam nas gengivas e arrancou-a com violência.

As refeições são agora mais difíceis de mastigar, o sorriso mais comedido, mas a boca, essa, mais espaçosa e menos esfolada, do que quando a ocupava o ferro e a massa anti-natura.

03/06/2013

Palram pega e papagaio e cacareja a galinha

Estou tão contente! Sério que estou. Não fazem ideia de há quanto tempo ando à procura deste poema que vinha na minha gramática da primária. Sei a primeira quadra de cor, a segunda mais ou menos e, a partir daqui, lá se vai a memorização. Acabei de o reencontrar - ainda não recuperei da emoção.

Vozes de animais 

Palram pega e papagaio
E cacareja a galinha;
Os ternos pombos arrulham ;
Geme a rola inocentinha.

Muge a vaca, berra o touro;
Grasna a rã, ruge o leão;
O gato mia; uiva o lobo,
Também uiva e ladra o cão.

Relincha o nobre cavalo;
Os elefantes dão urros ;
A tímida ovelha bale ;
Zurrar é próprio dos burros.

Regouga a sagaz raposa
(Bichinho muito matreiro);
Nos ramos cantam as aves;
Mas pia o mocho agoureiro.

Sabem as aves ligeiras
O seu canto variar;
Fazem gorjeio às vezes,
Às vezes põem-se a chilrar .

O pardal, daninho aos campos,
Não aprendeu a cantar;
Como os ratos e as doninhas
Apenas sabe chiar.

O negro corvo crucita ;
Zune o mosquito enfadonho;
A serpente no deserto
Solta assobio medonho.

Chia a lebre; grasna o pato;
Ouvem-se os porcos a grunhir ;
Libando o suco das ores,
Costuma a abelha zunir.

Bramem os tigres, as onças;
Pia , pia o pintainho;
Crucita e canta o galo;
Late e gane o cachorrinho.

A vitelinha dá berros ;
O cordeirinho, balidos ;
O macaquinho dá guinchos ;
A criancinha vagidos.

A fala foi dada ao Homem,
Rei de outros animais,
Nos versos lidos acima
Se encontram em pobre rima,
As vozes dos principais.

Pedro Dinis, Tesouro Poético da Infância, org. Antero de Quental, Publicações D. Quixote, 2003.


Serviço público: http://www.junior.te.pt/gramofone/
Para ensinarem gramática aos vossos piquenos, enquanto lhes contam uma história. Para além do mui venerável leque de autores, as deliciosas ilustrações do Afonso Cruz.

Uma aspirina e um copo de água, se faz favor

A debilitação do estado de saúde pode ser uma boa oportunidade para a modernização dos gostos. O século XXI vai já lançado a toda a velocidade e eu, que moro no fundo de um vale, só hoje descobri os programas agregadores de podcast. Ou muito me engano, ou este blogue vai ficar chatinho em partilha de conhecimento que só serve para atrasar o processamento do cérebro - tipo livros que não falem de vampiros e coiso.

02/06/2013

A Internet em off

São 21h. Menos uma nos Açores. Por imposição pessoal, o silêncio é todo o ruído que se ouve no quarto - só perturbado pelo meu nariz constipado. Desliguei o computador, fechei a porta à Internet e à tentação da música. Tapei-me com um cobertor leve e repousei os olhos numa revista*. Leio-a quase toda, com o sabor da concentração há muito perdida. Delicio-me com a entrevista de António Torrado, assinalando passos e ideias, para projectos a realizar num futuro indefinido, sugestões, pensamentos, visões outras, minhas agora.

São 23h. Nos Açores subtrai-se uma hora. Soube bem este silêncio, esta leitura, a descoberta, a reflexão. Não sei dizer que parte do meu corpo está mais grata - até o nariz adormeceu em paz.



* Palavras, nº 42-43

01/06/2013

«Pedo-simplicidade»

As crianças têm uma qualidade que os adultos deviam de querer ter de volta - a simplicidade com que dizem os afectos.
Beijar, acariciar o cabelo, abraçar nas horas menos propícias, dizer «gosto de ti» e sorrir de contentamento, tudo isto uma criança faz, sem precisar que lho façam ou digam antes, sem precisar que lho façam ou digam depois. Sem medo de inconveniências ou incredulidades.
Os adultos deviam de querer voltar a esta simplicidade. Os adultos deviam de perder o medo e voltar a dizer «amo-te», com toda a convicção. 


Eu quero ser como a Fabiana, que substitui as palavras por sorrisos enternecedores e abraços que sabem pela vida; quero ser como a Beatriz, sem medo de pedir colo e dar miminhos. Quero ser como elas, simples na forma de ser - criança.