31/05/2013

Vocês decidiram, está decidido.

A votação terminou e a afluência às urnas ali ao lado foi em tudo semelhante às Europeias em dia de muito calor. No entanto, apesar de muita ponderação e deliberação, o Sim ganhou com uma vitória resvés - folgada se lhe juntarmos os brancos, como se faz nas eleições normais (ouvi dizer!).







Quer isto dizer que, a partir de agora, este blogue e todos os que giro serão assinados em nome próprio. O pior que pode acontecer é a experiência correr mal e voltar tudo ao que era.

Feito que está o anúncio, vou ficar aqui na minha posição soberana, a olhar-vos de longe, que já basta saberem o meu nome, não precisam de me olhar nos olhos.

29/05/2013

O doloroso dever



Arlindo da Cunha e Silva e família cumpre o doloroso dever de
anunciar o falecimento de Maria das Dores… 

Arlindo riscou o que tinha escrito. Era um pesado dever, fatigante dever, entediante dever, doloroso nem por isso. A morte da sua senhora tinha ocorrido na placidez do leito, sem sobressaltos, nem transtornos, muito diferente do que tinha sido a sua vida. A grande dor que lhe provocara residia na alteração forçada do seu rigoroso horário semanal de lazer e no necessário adiamento da cartada que todas as quartas-feiras jogava com os compadres e que começava pontualmente às vinte e duas horas e terminava no rigor das badaladas da meia-noite – único alívio de todas as outras horas de tormento que aquela mulher lhe causava. 

Arlindo da Cunha e Silva – não esquecer nunca o e Silva – era agora um homem livre, libertado dos grilhões com que ele mesmo se prendera a Maria das Dores – e que dores, meu Deus, que dores! –, separado da sua terra prometida de tranquila viuvez por aquele deserto de ideias que era ter de anunciar ao mundo que as dores tinham terminado, restava enterrar a Maria. «Em frente, camarada, ânimo, que o décimo segundo trabalho de Hércules está prestes a cumprir-se, aqui não hei de penar quarenta anos!». Assim, na sua calma de obediente funcionário das Finanças, adquirida ao longo de cinquenta anos de trabalho metódico e honesto, recomeçou: Arlindo da Cunha e Silva informa os interessados da morte de Maria das Dores…

continua num ficheiro .doc

28/05/2013

Correspondência íntima - XII


As coisas têm uma lógica que não tem a ver com o valor. Que fazer? Abandonar o valor e ir com a lógica, sabendo que sem esse valor, sendo nosso, nos estamos a abandonar e a retirar o prazer que temos em nos reconhecermos no que fazemos? Ou manter o valor e abandonar a lógica, sabendo que o resto do mundo vai atrás dessa lógica?



Hoje entendo melhor os artistas, no verdadeiro sentido da palavra, que criam muito para si, sem grande consideração pelo público, porque o público não passa de uma grande prostituta - contra mim falo, pela facilidade com que ponho coisas de lado.

Ou seja, mantenhamos a lógica do valor contra o valor da lógica. nenhum de nós espera enriquecer à custa destas coisas que faz.

27/05/2013

A inspiração

vem como quer, de onde quer. Pouco se importa com vontades ou convenções.

26/05/2013

Enredaste-te com as palavras da tua boca


prendeste-te com as palavras da tua boca. (Prov. 06:02)


Mas sempre era melhor do que nada.

25/05/2013

Palhaçadas

Se um palhaço incomoda muita gente, dez milhões têm de incomodar muito mais.

24/05/2013

Escrever ou não escrever este blogue em nome próprio

Ando a pesar os prós e os contras de deixar de me esconder atrás da Rapariga e assinar o que escrevo com o meu nome. Se no início, o anonimato era desejado, agora questiono a sua importância. Na verdade, o que escrevo é cada vez mais assumido e menos escondido, pelo que não sei.
Deem-me lá uma ajudinha e digam de vossa justiça.

23/05/2013

A verdade dói


exato momento em que a verdade atinge o estado da ignorância produz no corpo a sensação de um murro no estômago que ensurdece os sentidos e o arrasta, para uma dimensão ausente de tempo. Primeiro, é o embate do punho fechado contra a carne desprotegida. Depois, a contração dos músculos, o punho que entra mais dentro e toca mais fundo. Um som estrangulado escapa-se pelos lábios abertos em mudo espanto. Os olhos abrem-se de dor e surpresa. O corpo recolhe-se sobre si, para amparar o golpe. Um instante prolongado no tempo, intensificando a perceção das terminações nervosas. 

– Morreu. 

– O quê? 

O punho novamente contra o estômago. Agora mais forte, agora mais doloroso na carne já massacrada. O mesmo som estrangulado na garganta, os mesmos lábios espantados, os mesmos olhos que se abrem e turvam, o mesmo corpo recolhido a amparar o golpe. O tempo a dilatar-se em agoniante lentidão. 

É o corpo contra a verdade ou a verdade a atingir o corpo vezes sem conta. É o corpo que se atira ao punho fechado, é o corpo que insiste na luta, cada vez que a resposta é lembrada. A carne a enegrecer-se nos golpes. 

A mesma pergunta em circuito ininterrupto na mente, o corpo a gemer de dor; a resposta a queimar nas veias, o corpo a contorcer-se de dor. Pergunta-resposta, resposta-pergunta e o corpo prostrado, amálgama informe, indefeso aos ataques daquela verdade que lhe dói mais e mais e mais e tanto até não a sentir. 

Sucedem-se os lamentos e as dores e as lágrimas. Uma espiral de sofrimento que não tem fim, uma angústia da alma, um pranto que não cessa. Os braços erguem-se, para afastar aquela verdade; os braços recolhem-se, para proteger o corpo. Rouca fica a garganta pelos muitos gritos que passam por ela; cansado o peito do ar que lhe não chega. Os olhos apertam-se, para não ver, as mãos curvam-se – querem segurar, prender, agarrar o que já perderam. 

Não há vitória nesta luta desigual, impotente para o corpo derrotado. E o corpo ali fica, abandonado e doído. Um instante sem fim.

22/05/2013

Aguenta, coração benfiquista

O triste no meio disto tudo é que qualquer semelhança com a realidade é o que é.
Agora, vou ali abrir uma garrafa de champanhe do Benfica e festejar o meu desportivismo - e esquecer as mágoas.

No fim, ela saberia

A certeza de que tudo poderia acabar no tempo de um ai dava-lhe a ainda mais firme certeza de que nada a poderia impedir. Sim, haveria de haver gente perdida pelos passeios a atrasar-lhe o passo. Sim, os saltos dos sapatos haveriam de ficar presos entre as enervantes pedras da calçada e o vento haveria de soprar com força, descompondo-lhe o cabelo e a saia. O calor haveria de lhe afoguear as faces e cobrir-lhe a pele com uma fina poeira de suor. Sim, as portas do elevador haveriam de fechar no segundo anterior à sua chegada, retardando-lhe a pressa. Todo o universo se uniria contra si e a sua vontade, a sua firme certeza e a sua mais firme decisão. Mas ela precisava de respostas, de confirmações, de inequívocas verdades, de pontes seguras e chão firme. Sim, ela haveria de contornar a gente, desprender os saltos, prender a saia, compor o cabelo, suportar o calor e esperar pelo elevador. Enfrentaria o universo, mas no fim, por fim, ela saberia.

21/05/2013

Eu quero ir viver para a secção de calçado



da Primark!

É enternecedor ver a quantidade de sapatos com o meu número que lá se encontra.


Nenhum assim tão giro, mas temos de aprender a viver com o que há.