18 de Fevereiro de 2008, Coimbra.
Tudo tem um início, o deste blogue foi na data supramencionada.
Em três anos de escrita, posso dizer que este espaço contém necessariamente um Génesis, muitos Provérbios, ainda mais Cânticos, não testemunhou milagres mas assistiu a renascimentos e ressurreições, provavelmente iniciou já um Apocalipse.
Ab initio
No início era a necessidade de processar tudo o que ia cá dentro, e as palavras foram saindo timidamente, projetando-se na tela das mensagens, e foram recebidas por mim de braços abertos.
Não nasceu para ser famoso, não nasceu para suprir necessidades sexuais, não nasceu para os outros, nasceu porque houve dias em que doía demasiado e eu precisava livrar-me daquele lastro.
Não era correto, muito menos saudável, saturar as poucas pessoas que estavam a par da situação, os amigos são para as ocasiões mas não para viverem os meus dramas ao milímetro, por isso comecei a escrever.
Precisava de olhar com distanciamento a mescla de sentimentos. Precisava olhar para o papel virtual e ver quanto estava gasto, quanto faltava gastar. Precisava despir aquelas camadas que ameaçavam sufocar-me.
Nos dias menos bons, porque houve dias em que o simples respirar era um exercício hercúleo, publicava em catadupa, pequenas frases, palavras dos outros, palavras minhas, músicas, imagens, tudo quase sempre junto.
Era quase mutilação emocional, crescer dói, não só no corpo como na alma.
No fim, sentia-me sempre mais livre. "Aquilo" estava mais gasto, um dia estaria gasto de vez.
Durante meses, ninguém soube deste espaço, ninguém o leu a não ser eu.
You came into my world,
and when you kissed me,
you collapsed me forever
Into this world
when you held me,
We fought windmills together,
and you came into this world,
and you killed me.
Forever, means ever,
into this world.
("Pure" - The Gift)
O destinatário
Este blogue teve, até meados de janeiro, um destinatário definido. Em nenhuma ocasião "tu" foi irreal.
Um dia o destinatário soube que o blogue existia, creio até que leu algumas coisas, terá preferido evitar outras, e nesse dia as portas abriram-se e aquele que tinha estado escondido mostrou-se sem vergonha.
Também nunca pretendi atribuir culpas.
Não há culpados, há apenas consequências de jogar pelas ou contra as regras. Eu quebrei as regras quando segui as regras, por ter seguidos essas regras que quebraram outras encontrei-me naquele ponto que não sei explicar.
Agora não há nenhum "tu", antes de todos, há apenas um "eu".
Há um perfume que não sai do meu cheiro.
Há um sabor que não sai da minha boca.
Há uma voz que não sai do meu ouvido.
Há um toque de pele que não sai das minhas mãos.
Hás tu que não sais dos meus olhos...
Entra, não faças barulho.
Inunda o meu olfacto.
Apodera-te do meu gosto.
Fala ao meu ouvido.
Toca a minha pele.
Entra nos meus olhos.
Mas não faças barulho...
Seguidores
Não sei como cá chegaram, um dia eles clicaram no botão e juntaram-se.
Meses mais tarde, alguns acharam que podiam comentar e salvaram o blogue da total clandestinidade.
21.12.99
Santo António do Estoril
Apago todas as mensagens. Menos as tuas. Guardo a tua voz em pequenas doses e, dia sim dia não, ouço-as todas de seguida. Sinto-me demasiado incapaz para falar contigo para o que quer que seja. Não sei onde estás. Não quero saber. Tenho medo de saber mais do que sei. Uma dor de cada vez basta.
in Saudades de Nova Iorque, Pedro Paixão
Agora
Quando escrevi que não sabia que rumo este blogue levava, estava realmente sem saber.
Este blogue ganhou vida própria.
Uma coisa sei, não se submeterá à ditadura do número de seguidores ou comentários. Aqui não há comentários censurados, nem feitos para me agradar.
Neste espaço, exijo que as pessoas se expressem com verdade, nem que seja com silêncio, que opinem mesmo que me contrariem, que sejam fiéis a si mesmas.
Não quero beijinhos, quero opiniões; não quero que me elogiem, quero que leiam e comentem se quiserem. Não quero comentários para encher, prefiro nada.
Eu não vou transformar este espaço em banalidade.
Ad aeternum?