Tenho a página em branco à minha frente. Penso no que hei-de escrever. Ensaio algumas palavras que escrevo e apago. Considero inspirar-me com alguma música ou imagem. Lembro-me da descontracção do meu passado no seu jeito felino «a palavra que mais identifico com a Rapariga é cansaço». Paro imediatamente os dedos sobre o teclado. Hoje, não escreverei sobre isso!
| Hedrich Blessing Silhouetted Typist, 1930s |
O cansaço é aparente ou talvez ilusório. Para lá das olheiras – não tão acentuadas quanto a dona o faz querer – há um olhar cintilante, qual centelha que desvenda toda uma força que ali está, prestes a rasgar em mil pedaços essa capa de inanição. É sobre essa força que alguns de nós gostaríamos que escrevesses.
ResponderEliminarDizes tu, que não o sentes. Que isto do cansaço é como as dores - cada um sente o seu. :)
EliminarAi não são assim tão acentuadas? Tu faz qualquer coisa com esses olhos (além de os lavares nas meninas que gostam de correr pelos parques), porque se não viste as olheiras é porque estás a ficar ceguinho.
Essa tua lisonja podia levar-te longe, não fosse eu ser como o mármore (e nem te arrisques na piadinha que eu cá bem sei, que já me ri sozinha à custa dela) dura e fria.
Agora lembrei-me de uma expressão que já não ouço há anos: «olhe que não, olhe que não» - isso das centelhas tem muito que se diga e a minha está a apagar-se por falta de ar que lhe acerte em cheio e mais acrescento que já deveria o menino de saber que eu não sei escrever sobre coisas bonitas, forças e afins, eu é mesmo só prá desgraça. :D
Mas, espera, ficou ali pendurado o «olhe que não». Isto lembra-me outras guerras... podíamos escrever um livro sobre mortos, daqueles que ainda andam (alguns)! Com o teu cinismo e o meu humor negro, era prémio Leya na certa!
Pensa nisso, que 50 mil davam-me jeito. ;)
OK, Rapariga Simples, não vamos perder tempo - nem dispensar carateres - a calcular a profundidade das olheiras, nem a medir a luminosidade do olhar.
EliminarFoquemo-nos, então na lisonja, imagem de marca do autor... a tua estoicidade marmórea é respeitável e combina lindamente com este meu conceito distorcido de diplomacia, que me leva a respeitar religiosamente acordos tácitos, mesmo que isso implique um fechar de olhos a missões humanitárias urgentes, como as limpezas de lodos em ancoradouros, que custam tantas vidas por ano...
Finalmente, o livro a 4 mãos... desafio aceite ;) Talvez sobre uma heroína esgotada e sem forças, de tanto fugir de mortos (vivos)?
Mais uma vez a minha argumentação poderosa te faz um nó cego! :D
EliminarHá lodo no cais, meu caro, bastante até! Arrisco que comece a transformar-se num pântano onde tudo se perde, nada se acha. Seriam necessárias consideráveis horas para o devolver à vida brilhante e navegável. Mas os acordos tácitos são bons e o respeito que deles decorre também - ainda que não possamos falar de uma diplomacia pura, ao jeito do Calvet de Magalhães.
Esse tema para o cerne de um livro é capaz de estar esgotado, é que o título que me ocorre é The Walking Dead - e esse já tem dono?
Não podia ser um com uma história simples, fácil e que acabasse bem? Assim, só para ser diferente, sei lá! :)
OK, do you want something simple?
EliminarE que tal a história de uma rapariga à beira rio plantada que, reconhecendo a inoperacionalidade do seu cais, decide finalmente engolir o orgulho... a seco não, talvez acompanhado de uma caneca de café e barrado por um belo doce tradicional caseiro.
E após a deglutição do mesmo, convida a entrar o velho amanhador de cais, que lhe andava a rondar a porta há meses. Finda a conversa de circunstância, acerta os termos do acordo e conduz o envelhecido artesão ao local que tanto a aflige, dando-lhe a dose necessária de liberdade para que possa deitar mãos à obra.
Sempre sob apertada supervisão, não fosse aquela uma obra exigente, destinada aqueles poucos que sabem combinar na porções certa a força e a gentileza que tão delicada estrutura o exige.
Como o disseste e bem, é um trabalho moroso, que ocupará uma ou duas estações. Mas a dedicação, o saber e a entrega do velho amanhador deixá-lo-ão pronto mesmo a tempo da chegada do verão, altura em que novas embarcações passam ao largo, espreitando uma oportunidade de aportar em tão aprazível cais.
E aí sim estará completo o ciclo. O artesão rumará de volta à sua oficina, enquanto a rapariga correrá a aprumar-se para dar as boas-vindas aos navegantes que se avistam na linha do horizonte.
Que dizes?
Digo que tu tens mesmo jeito para a ficção!
EliminarEsse plano daria um belo... livro. E seria arte pela arte, nada de Wilde a meter o bedelho onde não é chamado.
Também podia ser a história de uma rapariga que cuida do seu cais lodacento sozinha, que isto hoje as mulheres têm de saber fazer tudo, e que passa a vida a ver navios ao largo, a beber canecas de chá e/café, rodeada de gatos - para fazer cumprir o bom e velho lugar comum.
Até porque a rapariga da tua história começa a ficar fartinha de amanhações cíclicas e com o termo bem definido no contrato. Agora ou é sem prazo ou são gatos. Nada de meios termos.
Parece-te bem?
Não tem a força narrativa da minha proposta, mas sim... dá a garantia de um final feliz e é, ao fim de contas, isso que nos interessa. Optemos então pela tua solução ;)
Eliminar....
Miau, miau...
Dá a garantia de um final. Não diria feliz, diria menos mau.
Eliminar----
tu sabes muito...
Ron ron...
Eliminar(só estava a tentar dar um ritmo Nicholas Sparksiano à história... se queremos best-seller temos de sacrificar coisas como finais felizes e amores perfeitos)
;)
E eu que gosto tanto de Nicholas Sparks... gosto assim tanto ou mais que do outro que não pode ser pronunciado mas que resulta de um árduo trabalho de autopromoção.
EliminarPois a minha ideia passa exactamente por aí: não há finais felizes, nem amores perfeitos.
A partir daqui construía-se uma narrativa densa, desconsolada e, claro, a acabar mal - bem ao gosto contemporâneo. Com um bocadito de sorte ainda se vendiam os direitos para um filme indie e ganhávamos uma banda sonora de arrancar lágrimas aos mortos (tipo as minhas playlist do Spotify, mas não digas a ninguém).
Enfim, um mundo de oportunidades que excluiu miúdas muito magrinhas e rapazinhos cheios de músculos, presentes pindéricos em datas comerciais e a chatice de passar o resto da vida a lavar peúgas.
Claro que acabaríamos a escrita encharcados em antidepressivos. Um pequeno preço a pagar pela criação do grande romance português do século XXI.
:)
(diz lá que eu não continuo uma idiota chapada!)
Parte isso tudo com in tensão. Metafóricamente que o meu seguro não cobre poesia.
ResponderEliminarDiz a santa Wiki...
Eliminar«Em física, tensão é a grandeza de força de tração exercida a uma corda, a um cabo ou a um sólido similar por um objeto. É a resultante das forças de atração e de repulsão eletrostática entre as partículas de um sólido quando submetido a uma deformação, em que a tendência de voltar ao seu estado inicial é observada. A tensão é o oposto de compressão.[1]
A tensão é medida em newtons segundo o sistema internacional de unidades, sempre mensurada paralelamente à corda em que se aplica. Há duas possibilidades básicas de sistemas formados por corda e objeto: ou aceleração é zero e o sistema está em equilíbrio, ou existe aceleração e, portanto, há uma força resultante. Note que em ambos os casos a massa da corda será assumida como desprezível.»
Maneiras que manis poético que isto não há.