Partilho um texto da Maria do Rosário Pedreira, editora da Leya e poetisa que muito aprecio, sobre um assunto que me toca também. Não que seja escritora famosa a quem solicitam textos em troca da gentileza de se terem lembrado de mim, mas revejo-os e, de certa forma, é uma das minhas profissões, logo, uma forma de ganhar a vida. Há, no entanto, quem resista a ver as coisas por este prisma e insista em me dar textos, currículos, cartas de apresentação, trabalhos da faculdade, para a mão, para eu ler e ver se está tudo bem, sem nunca me perguntarem se levo caro ou barato. Afinal, custa alguma coisa dar um jeitinho? Custar, não custa, o que custa é dar muitos jeitinhos e continuar sem ter como pagar as contas.
Quando eu comecei a trabalhar no ramo editorial, a maioria dos
escritores com obra publicada tinha um emprego fixo e escrevia nas horas
vagas (como não havia tantas solicitações como há hoje e a televisão só
tinha dois canais, era mais fácil arranjar tempo). No entanto, hoje os
escritores querem viver exclusivamente do que escrevem (que é, também, o
seu trabalho) e, porque o País é pequeno, raramente o que tiram das
vendas dos respectivos livros é suficiente para se sustentarem, tendo
por isso de se lançar à escrita de guiões, artigos de jornal, recensões,
peças de teatro, etc. Mas não é fácil, claro; primeiro, porque estas
manobras os afastam muitas vezes das obras que estão a compor; depois,
porque estão sempre a ser solicitados para escrever sobre tudo e mais
alguma coisa, de borla! Pois, pois... Eu queria ver se alguém tinha lata
de convidar um economista ou um médico para escrever ou falar sobre um
assunto específico sem lhe pagar... A um escritor, porém, quase nunca se
toca no assunto do dinheiro, como se ele vivesse do ar e fosse sua
obrigação oferecer de mão beijada todos os seus textos. É, na verdade,
escandaloso – e a verdade é que muitas vezes, ao convidarem escritores
para discursarem neste ou naquele evento, ainda acham que lhes estão a
fazer um favor e a dar uma oportunidade para promoverem os seus livros.
Eu, por exemplo, estou a sempre a receber pedidos para fazer prefácios
em livros de poetas estreantes, mas mais recentemente também me pediram
artigos que me obrigariam a uma investigação séria sem mencionar o
pagamento uma única vez. Fiquei até agradavelmente surpreendida quando
há uns meses uma instituição me convidou para ler e falar de poesia e me
disse logo que pagava. Mas foi uma excepção e não parece que ninguém
lhe siga o exemplo. Escrever será pior do que fazer contas em quê?
Maria do Rosário Pedreira, no seu blogue Horas Extraordinárias
Minha amiga eu, por um mero acaso trabalho por conta de outrem, mas não cabem nos dedos das mãos (nem dos pés) as vezes que, durante a semana, sou interpelada em busca de um conselho jurídico. Se fosse advogada por conta própria, vivia do ar.
ResponderEliminarEstá em causa o princípio do respeito pelo trabalho do outro. E posso dizer, não sem lamento, que tenho verificado nos Portugueses um desrespeito muito grande. No seu trabalho é só direitos, no trabalho do outro também.
ResponderEliminar"Está em causa o princípio do respeito pelo trabalho do outro. E posso dizer, não sem lamento, que tenho verificado nos Portugueses um desrespeito muito grande. No seu trabalho é só direitos, no trabalho do outro também.
ResponderEliminarassino por baixo