Caro Futuro,
li algures que conversar consigo mesmo é um sinal de loucura
em fase inicial. Também tenho a impressão de que é vício dos professores
falarem sozinhos, em monólogos, que dificilmente chegam a ser diálogos, com a
consciência. Agora que penso nisto, tenho a vaga ideia de alguém mo ter dito. Se
li, se mo disseram, não tem relevância alguma, a questão principal é que
falamos em voz alta connosco mesmos e isso pode não ser lá muito saudável – por
via das dúvidas, decidi escrever-me.
Bons parceiros de diálogo são tão difíceis de encontrar como
uma casa com acabamentos de topo, vistas fantásticas, no melhor sítio da cidade
e a um preço para amigos – a menos que se tenha um amigo empreiteiro, e mesmo
assim é de desconfiar, «não há almoços grátis» – e eu, confesso, tenho fases de
grande cansaço em que não me apetece ter de explicar mais uma vez por que razão
tenho a mania das organizações, medos que só a custo confesso e os motivos por
que fui deixando de existir em tantos contextos. Pode ser só preguiça minha.
Seja lá por que for, conto por metade dos dedos de uma mão o
número de pessoas com quem realmente converso… aqui num parêntesis, estou mesmo
a ver à minha frente uns quantos pares de sobrolhos franzidos a pensar «se não
falas, é porque não queres» e tenho de lhes dar razão…
É inquietante a consciência da galopante solidão acompanhada
em que estou a mergulhar. Não de repente, antes como se de areias movediças se
tratasse. São as pequenas indiferenças, as pequenas desconsiderações, os
pequenos esquecimentos, os pequenos fingimentos, tudo muito subtil, muito
inocente, muito na famigerada maldade de quem interpreta as coisas mal.
Li certa vez que um cônjuge não deve encarar o casamento
como uma relação parental em que o outro é uma espécie de filho que tem de
educar e orientar, sob pena de o cônjuge-filho vir a sofrer daquilo que todos
os filhos sofrem – o desejo de fugir dos seus pais. Devo ter sido uma espécie
de mãe para muita gente, é natural que ao atingirem a maioridade emocional
queiram ir correr mundo, ver a vida, pintar a cana verde, fazer trinta por uma
linha, tudo menos perderem tempo com a «progenitora».
Este intróito tinha um sentido… devia ser o de justificar o
título – tem sempre de se justificar o título, não é?, «em que medida o título
aponta para o sentido geral da obra?» –, já que não posso chamar a isto tão só
Ideias verdes em folhas rosa choque, o que é uma pena! Uma lastimável pena.
Posto isto, funcionarão estas cartas como reflexões avulso
do eu que sou hoje, dirigidas ao eu que serei num dia qualquer do futuro, que
espero seja longo. No fundo, são criancices pseudo-literárias, não vejo já
grande margem de progressão para a minha personalidade. A menos que me torne um
pouco mais calada, um pouco menos interessada, um mais ou menos
descaracterizada.
Já escrevi uma carta ao meu eu passado, talvez esteja na hora de escrever uma carta ao meu eu futuro...
ResponderEliminarÀ medida que o tempo passa, vamos esquecendo coisas que já foram muito importantes. Escrever cartas ao Eu futuro é uma forma de nos lembrarmos. (:
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