Nunca deixes nada por fazer.
Nunca deixes nada por dizer.
Por dizer...

Words_by_LittleRedRidingHoody
As palavras agarram-se a nós, prendem-se, multiplicam-se em quantidades ditas industriais; preenchem silêncios incómodos; povoam o espaço de circunstância; teorizam o tempo, a moda, a política, o futebol; estão sempre certas (as nossas pelo menos); cuidam que podem compor, organizar, dominar o nosso mundo e que, feitas as contas, fizeram um trabalho impecável e bastaram para que não restassem equívocos.
Mas as palavras são também frágeis, tímidas e sensíveis, escondem-se, ocultam-se, disfarçam-se.
Quando parece que tudo foi dito, o mais importante ficou por dizer. Substituem-se as palavras por gestos, encolher de ombros, sorrisos, lágrimas e palavras!
Palavras pré-escolhidas em discursos ensaiados, vazias de sentido, gastas e sem cor pelo muito que estavam preparadas e separadas para aquelas ocasiões. São politicamente correctas, tranquilizam quem as ouve, mas não são sinceras, não são sentidas.
E o coração enche-se das palavras que a boca não disse, não quis dizer, achou que não podia dizer, não pôde dizer.
E os assuntos foram falados, debatidos, racionalizados, expostos segundo uma lógica irrefutável, num exercício de retórica admirável mas pálido, oco, cansado.
E as palavras esconderam palavras, vestiram palavras, disfarçaram palavras, calaram palavras e sentimentos.
Tantas palavras para esconder o facto de eu nunca te ter dito "gosto de ti"...