23/09/2017

A noite

A noite traz o sossego,
a colcha fofa que nos cobre a pele.

Espalhamos o corpo e o amor pelos lençóis.

Damos as mãos, contra
o medo e a incerteza.

A noite traz a calma sobre
os nossos corações, nem sempre em
sossego.

08/09/2017

O mundo às riscas

Começaste por ser um insistente cansaço, acompanhado do sono que às 21h me prostrava. Depois, uma intrigante sensibilidade aos cheiros, especialmente os muito florais, que me deixava o estômago às voltas. Passaste a ser um «será?» desconfiado, confirmado nas risquinhas azuis daquela espécie de tubo branco. Foi assim que soubemos que eras mesmo, uma pequena existência que, como o vento, não víamos, mas começávamos já a sentir os efeitos. Enchi-me então da esperança de que te haveria de encher de laços e fitas e folhos com florzinhas miúdas; quebrarias o reinado másculo de ambos os lados da família e serias uma pequena princesa fofa nas nossas vidas. Trouxe-vos às duas, a ti e à esperança, todos os dias de espera até ao momento em que me deitei naquela cama estreita que enchia o pequeno espaço escuro, senti o frio do gel a arrepiar-me a pele, a pressão da sonda do ecógrafo na minha barriga e a tua imagem, pela primeira vez, projectada no ecrã em frente. Foi naquele momento, sem que ninguém mo dissesse, que vos perdi às duas -- contra toda a esperança, o futuro será feito de calções, riscas e muito azul. E eu mal posso esperar para que assim seja.



06/09/2017

Da relativa importância de pensar e falar por escrito

Estou a deixar este espaço morrer devagarinho. Não é por falta de assunto ou de histórias, que esses acontecem diariamente e com salpicos de surrealismo consideráveis. Também não é por falta de ter o que dizer, porque nunca falei tanto na vida toda, o dia inteiro. Talvez resida aqui o problema: o silêncio é uma realidade cada vez mais estranha, não há, pois, a necessidade de o fintar com diálogos mudos.

Depois, existes tu e nós. Nós, que começámos com dois e estamos em rápida progressão para sermos três. Essencialmente tu, meu confidente, aturador de neuras, porto de abrigo, pilar forte da minha vida, delicioso parceiro de aventuras, solucionador de 90% dos problemas que vão aparecendo pelo caminho, o meu amor imperfeitamente perfeito para mim. Tu, que reduziste o passado a uma memória longínqua e difusa, de importância relativa. Tu, que me deixas recados que me inundam os olhos e me dás a mão enquanto dormimos. Tu, que andas às voltas com parafusos, porque é preciso que a cama fique bem segura, e analisas exaustivamente as características dos colchões. Tu, que eu amo com um amor tão intenso e retribuído que às vezes dói. Tu, a quem eu posso dizer tudo, sem o deixar registado de outras formas.

Sim, vamos ser velhinhos, os dois, juntos!