30/08/2016

Tu quoque, Brute, fili mi!

Tenho uma incapacidade assumida de lidar com os silêncios que não compreendo ou que não me são explicados. São na minha vida como uma pedra dentro do meu sapato, uma nódoa negra profunda que não sara e onde tudo, por mais suave que seja, vai bater -- com o agravante de não conseguir transformar os escolhos em preciosas pérolas, porque não passam de pedras.

Ocorreu-me isto ao ler a Isabel, sobre o desvirtuar da oferta de disponibilidade ao nível das relações interpessoais. 

Comentei, com toda a sinceridade já ter desistido de entender por que razão me brindam com estas formas tão pouco honestas de relacionamento. Foi a resposta da Isabel que causou o punch que me tem andado no pensamento desde então: Carla, para mim estes silêncios não têm nada para lutar; é deixar cair e ir à vida.

Será que se consegue que seja sempre assim? Ou o descuido do outro bate-nos em cheio como a traição de Brutus? 

Digo, pela minha experiência, que o processo é tão ou mais doloroso e longo quanto eu acreditava na pessoa em causa e não esperava dela aquele comportamento. Não é que não perceba o que me está a ser feito; não é que não saiba ler os sinais que vão surgindo: o aumento gradual da distância, a diminuição do tempo partilhado, o decréscimo de assuntos essenciais nas conversas, o aumento de todas as contrariedades e chatices; as horas que se tornam dias, que se convertem em semanas, que redundam em meses de silêncio mascarado de qualquer coisa que não chego a perceber.

Claro que eu percebo. Claro que eu sei o que vai sair dali. A luta está em forçar um bocadinho, ir tentando perceber o que se passa a ver se há algum mal-entendido que possa ser resolvido. Mas a luta acaba, porque o cansaço leva a melhor. Percebe-se e engole-se em seco.

Tu quoque, Brute, fili mi!

Porque o que fica disto tudo é a decepção. Esperava de todos menos daqueles em particular e é dali que vem, é exactamente dali que me ferem até à morte. Sou César espantada e incrédula. Não era preciso isto, bastava dizer que não se queria mais.

Haverá vida depois disto tudo, mas é uma vida muito mais cautelosa.


24/08/2016

Ainda o sótão

Depois que fechou a janela, a rapariga que vivia num sótão, no meio da cidade, experimentou muitas formas de trazer de volta a luz aos seus dias. Comprou candeeiros, pintou sóis e céus nas paredes, vestiu-se de branco, para se sentir mais luminosa. Nada funcionou. Contra tudo o que tinha decidido, a rapariga que viva num sótão aproximava-se da janela, no exacto ângulo de antes, quando o homem que pintava céus se sentava no banco de madeira e pintava o que via, fechava os olhos e esforçava-se para mais uma vez o imaginar ali. Depois recriminava-se pela decisão imatura e afastava-se durante dias. Ao fim de muito tempo, quebrou outra promessa e rastejou por baixo da cama, à procura de uma caixa de cartão que tinha jurado não voltar a abrir. Na primeira vez que a abriu, quase se afogou nas lágrimas inesperadas que lhe correram dos olhos como rios excessivos. Já a lua ia alta a iluminar o sótão, quando a rapariga fechou a caixa e limpou as lágrimas. Passou um tempo comprido. Quando o céu fica mais negro, a rapariga que vivia num sótão, no meio da cidade, ainda abre a caixa de cartão escondida debaixo da cama (onde guardou restinhos de tintas, pincéis e esquissos), enganando a solidão com a lembrança do homem que pintava céus e já não mora ali.
De alguma forma, volta-se sempre às mesmas músicas, como se a vida não passasse de meras variações sobre os mesmos temas.

23/08/2016

22/08/2016

Em verdade, em verdade vos digo

que era bem capaz de apanhar um avião para a Austrália, só para os ouvir ao vivo. 
(obrigada, Youtube, por cumprires tão bem o teu papel há tantos dias seguidos)



Relentless - Hillsong United



Oceans - Hillsong United

20/08/2016

Curva descendente

 A curva descendente do amor é suave, macia como um caminho de algodão. Consola e conforta até à vertigem final do chão à frente dos olhos.

19/08/2016

Querido Universo

Querido Universo,

não te bastou o tudo que houve antes, foi preciso que o temperasses com o Outono a receber-me do lado de fora da janela, às 7h30 da manhã, e a perigar os últimos dias de trabalho. E para te certificares do dramatismo dos teus actos, «My Immortal» a berrar-me do rádio do carro. Esse humor negro e cruel com que lidas comigo há-de levar-te longe. Vai infernizar outros, sim?

Obrigada.

18/08/2016

O mundo é composto de florescimentos

ofsparrows:
“ Look. I know a slightly chewed up flower isn’t quite on par with those brandy barrels alpine rescue dogs purportedly have, but someone might need an emergency flower or something. It could happen.
”

17/08/2016

Um sótão e um céu

Todas as histórias têm um inicio. Algumas, por vezes, não se sabe dizer quando realmente começaram, deu a surpresa de serem percebidas em estado avançado. Havia uma rapariga que vivia num sótão de um prédio, no meio da cidade. Não se sabe muito mais sobre ela, só que um dia conheceu um homem que pintava céus. Bateu-lhe à porta e pediu permissão para ver o fim da tarde do alto da janela do sótão. Espantada, deixou-o entrar e observou-lhe com atenção o cuidado com que misturava as cores. Posso voltar amanhã? Pois, sim, voltasse. Ele voltou. Todos os dias, várias vezes, sempre para ver o céu tão próximo, tal era a altura da janela. Este céu é meu, disse-lhe, preciso dele, não mo tires. Se me impedires de ter este céu, morro. A rapariga que vivia no sótão guardou aquele pedaço de céu só para ele. Às vezes, vinham outros homens bater-lhe à porta, mas ela não os deixava entrar, podiam roubar-lhe o céu que já não lhe pertencia. Dele não sabia muito, para além de pintar céus e de ter ficado com o céu da sua janela. Vivia os dias a esperá-lo e, quando as visitas começaram a rarear, convenceu-se que era por razão das coisas muito dele, as coisas de que ela não sabia. Um dia, o homem que pintava céus deixou de bater à porta da rapariga que vivia num sótão. Passaram-se muitos dias de vigia à janela, o coração perto da porta, o céu a perder a cor. Num fim de tarde de Inverno, cheio de nuvens carregadas e luz barroca, a rapariga que vivia num sótão viu o homem que pintava céus debruçado numa janela de um quarto andar, vários prédios abaixo. O céu da rapariga que vivia num sótão de um prédio, no meio da cidade, anoiteceu e para sempre ficou trancado do lado de fora da janela. Fim.

No meio desta loucura inteira

a única certeza inabalável.



Here Now (Madness) - Hillsong United




Por manifesta incapacidade de gestão de conteúdos digitais, este espaço vai deixar de permitir comentários temporariamente (que é como quem diz, eu não chego a tudo).

13/08/2016

Nada me pertence

Não tenho nada de meu. Esta foi a conclusão a que cheguei, enquanto via passar um mar sereno de gente a crescer, qual onda, vindo do lado da areia, e a dispersar-se em frente às nossas bancas. Não tenho nada de meu, porque por tudo se paga direito de uso, taxa, imposto, renda, prestação, enfim. Nem o passado me pertence. Cada um foi à sua vida, ou continua no seu direito inalienável de permanecer morto, e as memórias foram perdendo a intensidade até ao ponto da dúvida. A idealização é uma tentação muito grande. A desvalorização também. Quando foi a última vez que te beijei como se a minha vida dependesse disso? Não me lembro. Creio que passaram anos, mas pode muito bem ter sido apenas ontem.

09/08/2016

Longas tardes de Verão

Há alturas em que a vida é uma longa tarde de um Verão escaldante. Tórrida, sem uma brisa que corra e alivie a dormência do corpo, estéril e seca. Como as tardes de Sábado demasiado compridas nos campos a perder de vista. O comboio ao longe, demasiado rápido para duas mãos cansadas. O Sol a pique a incendiar as costas dobradas sobre o vazio, os pés enterrados na terra fina a cozer os ossos, pequenas joaninhas a pontilhar o arrastar das horas a mais. Uma camada fina de cansaço e desconsolo cobre os ombros descaídos. Tudo está parado. Silencioso. Ausente. E de repente.

06/08/2016

Alô, Figueira da Foz!

Se andam por estes lados, ou são destes lados, euzinha vou estar hoje e amanhã (e todos os fins de semana do mês) na Mostra de Artesanato Urbano (ali pertinho do campo de ténis), acompanhada da minha Colher.

Há bolo à fatia, bolachas de manteiga e, claro, doces tão bons mas tão bons que não dá para comer só um frasco (pelo menos, um dos pequeninos).

Apareçam!

04/08/2016

Falta pouco...

Petra Tomaštíková

02/08/2016

Kindness Boomerang All Day


Obrigada! :)<3 p="">

01/08/2016

107 %

Foram 33 dias de intensa divulgação e espera. Foram 33 dias de surpresa e nervoso miudinho. Foi um total de 748 € (107%) angariados para a publicação do meu  livro. Se há três anos me dissessem que passaria por tudo isto, iria rir a bom rir. Hoje, só posso mesmo agradecer a todos que ajudaram a tornar isto possível.