30/06/2016

Depois da histeria, um pouco de serenidade

Agora que passou o choque da emoção e esta aventura já vai no segundo dia - uma fartura de tempo, portanto, parece-me importante fazer uma pausa e contextualizar aquele texto que pode, ou não, ver a luz do dia.

Não há em mim qualquer vontade de ser famosa, até porque sei muito bem que fama não significa mérito ou qualidade. Também não pretendo começar uma carreira ligada à escrita, por saber que não seria capaz de o fazer.

Tanto assim é que partilhei aqui no blogue, em 2013, uma troca de opiniões com um querido amigo que me incentivava a atirar-me às letras.







Noell Oszvald


Se assim é, porquê este livro?

Este livro é sobre mim (grande novidade) e um acontecimento muito violento que vivi. Foi a forma que tive de entender o que aconteceu, gastar o sofrimento que dali adveio e, de certa forma, arrumar assunto e pessoa. Até conservar-lhe uma série de características que começo a esquecer, quatro anos passados.

Por isso, este é um livro que detesto, profundamente. Quase odeio. A que não consigo voltar, que me deixou prostrada quando escrevi o último ponto final e que quase deu cabo do resto quando há uns meses o revi para a editora dar início ao processo do crowdpublishing.

Mas este livro é também o resultado da última ordem do meu morto. «Escreve», disse ele, depois morreu-me e escrever foi a única forma de o manter vivo dentro de mim. E, por causa desta ordem, comecei mesmo a escrever no blogue, a assumir os meus poemas, a perder a vergonha de dizer «isto é meu!».

Por isso, este é um livro que amo, profundamente. Se chegar a ser papel impresso, guardá-lo-ei junto dos livros que ele me deixou e então o ciclo ficará completo.


Se me agrada ter quase de impingir às pessoas que comprem um livro que desconhecem e podem nem vir a gostar? Nem por isso. 
Se há coisas que gostava que tivessem sido diferentes? Também.
Mas é o que há.

Se gostarem, se quiserem ajudar, claro que ficarei muito feliz. Senão, aceito com toda a naturalidade.


Um amor morto é uma estranha companhia, está na hora de o deixar em paz.

29/06/2016

Campanha «Falta pouco para os 700» - parte I

Feitas as contas ao primeiro dia de campanha para angariar 700 € que financiem a publicação do meu livro, já cheguei a várias conclusões:

  1. detesto vender coisas;
  2. não tenho jeito para vender o que é meu;
  3. a minha mãe é totó porque se enganou a participar, contribuiu em anónimo e agora nem livro, nem autógrafo, e vai ter de abrir os cordões à bolsa outra vez;
  4. os meus irmãos estão, como sempre, a ver se se escapam de ajudar os meus projectos;
  5. o meu pai fez um ar preocupado quando lhe disse 700 €;
  6. estou quase a prometer fotos indecentes a troco de dinheiro (o que pode ser muito mal interpretado);
  7. quem já ajudou só pode ser tolinho e não tem amor ao próprio dinheiro! (obrigada!!!)


Deixo-vos o vídeo promocional, só para terem a noção da piroseira que é aquele escrito. Depois prometo que deixo de falar do assunto por uns dias.



Entretanto, já só faltam 600 e troca o passo. Coisa pouca, portanto.

28/06/2016

Uma emoção sem limites

Já aqui tinha deixado duas coisas que me aconteceram e que não contava com elas: escrever um conto para a Preguiça Magazine e ter um programa singelo na Foz do Mondego Rádio. Faltava uma, para acabar a trilogia de atropelos inesperados à paz dos meus dias: o meu livro.

Meus queridos leitores, comentadores, anónimos e todos os que por aqui passam, é com muita emoção e uma pontinha de orgulho e muitos pozinhos de medo que vos apresento aquele que foi um dos projectos mais difíceis que levei a cabo e quase acabou de vez que a minha sanidade mental...




~


O livro está na plataforma de crowdfunding, é certo, e se quiserem ajudar a que ele veja a luz, é convosco. Eu só queria mesmo contar-vos a novidade.


Agora vou ali contar a novidade à família, já volto. :))

E mais nada

Toda a minha vida conheci pessoas que se definem como honestas de pensamento que dizem tudo o que pensam e sentem, goste-se ou não de ouvir; que têm ideias muito firmes e as partilham, a qualquer preço; muito verdadeiras e directas. São aquelas que, antes de opinarem, avisam «eu sou muito frontal, digo o que tenho a dizer e mais nada».

Toda a minha vida conheci pessoas que acusaram outras de mesquinhez, vingança, ressabiamento, não saber ouvir e calar, despeito e o mais que aqui caiba, quando ouviram o que não gostaram, ou quando alguém expressou discordância pelo que ouviu.

Curiosamente, as pessoas do segundo tipo foram exactamente as mesmas do primeiro, tão exigentes com a sua liberdade de expressão e o direito à opinião, tão pouco prontas a reconhecê-los no outro.

A estas pessoas, largo-as. São de uma convivência difícil e cansativa -- para além de pouco produtiva, para ambas as partes. É uma pena, algumas até tinham um potencial muito grande.

Shary Boyle

27/06/2016

Incerteza

Não sei o que foi feito do mistério. Desapareceu na noite, dissipou-se no ar. Foi levado para o lado negro dos dias, arrastado pelo cansaço das noites. Não sei que foi feito de ti. Desapareceste na noite, dissipaste-te no ar. Não sei o que te arrastou, nem o destino que escolheste. Um cansaço.

Guillaume Kayacan

23/06/2016

Rescaldo do Portugal-Hungria

Enquanto uns festejavam em delírio, outras planeavam o futuro.
Em delírio.

 
Terrace of café. Paris, about 1925.

20/06/2016

Entrar no armário

 Joanna Wróblewska

19/06/2016

I wish you no harm

Hoje apaguei 413 pedaços de passado. Não se pode esperar uma vida pelo presente que deixou de o ser.

17/06/2016

O atropelo da maravilha #2

Continuando na senda das coisas impensáveis, depois de ver um conto meu publicado, chega a rádio. É, rádio... nunca me passou pela cabeça, mas a partir da próxima sexta-feira será possível ouvir uma rubrica minha numa rádio perto de mim (de certeza que está longe de vocês todos).

Tem sido uma experiência desafiadora pesquisar, escrever, gravar, escolher músicas..., também cansativa e às vezes frustrante, mas ver tudo certinho e direitinho encheu-me de satisfação. 

Mantenho para mim que tenho uma voz estranhíssima e começo já a detectar certos tiques de pronúncia que depois me soam mal. É mais uma experiência.


15/06/2016

O ciclo do pó

Primeiro és pó em estado sólido. Barro duro. Confias a medo nas mãos que te seguram, desejas que não te larguem, enquanto estremeces cada vez que os dedos perdem a força e quase cais. És barro, frágil como o pó solto. Depois, sentes a água ensopar-te os cabelos, escorrer pelas costas, cair-te aos pés. O medo engoliu o desejo, as mãos deixaram-te ao desamparo na rua e seguiram a sua vida, em silêncio. És barro mole. Desfazes-te lentamente debaixo da humidade do tempo, não és mais do que uma papa informe. Que te sobra? Criares duas mãos hesitantes e reconstruires-te, enquanto aguardas com paciência pelos raios do sol. Hás-de voltar a ser duro.

hagakuremarco:
“ lambertmoiroux:
“ Villa Borghese
Rome
avril 2016
”
Rome Caput Mundi
Lambert Moiroux, Villa Borghese, Rome, avril 2016

14/06/2016

Da minha vida sentimental

Tenho a confirmação de que a minha vida sentimental está uma lástima, quando vejo um casal idoso a trocar beijos na rua e fico cheia de inveja.


De pernas para o ar

No meu poema ficaste
de pernas para 
o ar 
(mas também eu 
já estive tantas vezes) 

Por entre versos vejo-te as mãos
no chão 
do meu poema 
e os pés tocando o título 
(a haver quando eu 
quiser) 

(...)


Ana Luisa Amaralin «366 poemas que falam de amor»

11/06/2016

De memória

untrustyou:  Jordan Tiberio
Jordan Tiberio

Conheço de memória o teu corpo.
É contra a luz que o vejo nítido.

A distância que vai do meu corpo
à tua ausência
é um nada de caminho
apertado.


Cala-te, Mundo!

Já não posso ouvir o teu grasnar constante de quem só tem boca e não tem ouvidos. Eu acho, eu acho, eu acho... Experimenta perder-te umas horas -- pela minha rica saúde.

08/06/2016

A praia

Vejo frequentemente fotografias da praia onde te ensinei a palavra gaivota e me ensinaste a palavra saudade. É uma praia comprida, acompanhada por um corredor de madeira que salva os pés do incómodo da areia e passeia o tempo a mais.

As gaivotas voaram soltas nessa manhã fria de Inverno e tu saboreaste-lhes o nome numa língua que desconhecias. Passeaste o meu tempo a mais no chão de madeira e deixaste-me o incómodo da tua ausência. Nunca mais voltei àquela praia.

07/06/2016

06/06/2016

O Universo quer falar-me

tantas são as vezes em que tropeço nesta imagem. Deve ser bonito, deve... (o que não é bonito é aquela vírgula ali a dar cabo de tudo)


04/06/2016

Jardim da Sereia, num Inverno de felicidade

Dizem-nos que não devemos voltar aos lugares onde fomos felizes. Como se o regresso fosse capaz de destruir a memória mágica que ficou desse tempo.

Não concordo. Acredito que devemos voltar aos lugares onde fomos felizes. Uma e outra e outra vez. Todas as necessárias para nos lembrarmos que houve um dia em que atingimos um ponto tão alto no grau da felicidade que se colou à memória, para não mais de lá sair. Um momento irrepetível, ainda que se repita o lugar e quem lá está, 

É obrigatório voltar nos dias da descrença. É imperativo lembrar ao coração que o que aconteceu sem contar há-de muito bem voltar a acontecer. Mesmo que não se repita quem lá vai.

tão bonita e bem tirada que só podia ser minha...

02/06/2016

Lembranças dos dias bons

Meu amor de longe - Raquel Tavares


Começava uns dias antes. As mãos tremiam e transpiravam, o coração acelerava, o estômago contraía-se de nervoso. A roupa era escolhida, o itinerário, as refeições, tudo pensado ao pormenor. Na véspera, dormia mal, em deliciosa antecipação. No dia, o cabelo era cuidadosamente lavado e a pele borrifada pelo perfume que lhe dera. Era sempre assim, quando ele vinha. Ou quando ela ia lá.